Um mês após o final do Euro’ 2004, importa fazer um breve balanço e tirar conclusões que nos podem vir a ser benéficas no futuro.
O Euro 2004 desmistificou a ideia de que somos uns incapazes crónicos, mostrou o potencial da Lusofonia, uniu os portugueses e elevou a nossa auto-estima. Tudo isto proporcionado por um campeonato de futebol, esse desporto “perverso e fonte de vício”! Como deve ser ininteligível tal fenómeno aos olhos das minorias pseudo-intelectuais que se julgam donas das nossas consciências. A organização foi exemplar. Estádios belíssimos, acessibilidades e transportes funcionais, segurança eficaz mas cordata. Nunca ninguém tinha feito melhor, dificilmente alguém realizará igual. E, para os mais ignorantes na matéria, convém esclarecer que o Campeonato da Europa de Futebol é só o terceiro mais importante evento desportivo à escala planetária!
De Díli às favelas do Rio de Janeiro festejou-se e sofreu-se em português. De uma forma nunca vista. Seria óptimo que a classe política aproveitasse este sinal para dar um impulso definitivo à CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa) e a transformasse numa força política, económica, social e cultural incontornável, que resulta de cerca de 400 milhões de pessoas sentirem com um coração lusitano. Ou não era Pessoa que dizia que “a minha Pátria é a minha Língua”.
A FPF devia catalizar este fenómeno e, sem preconceitos, tornar cidadãos portugueses de pleno direito todos aqueles que o desejem, desde que falem a nossa língua. Ou será que o empenho de Deco não foi tão generoso quanto o de Figo ou de Rui Costa?
De Viana do Castelo ao Funchal, de Bragança a Ponta Delgada, o País vestiu-se de vermelho e verde, muitos aprenderam pela primeira vez o significado da simbologia da nossa bandeira, milhões cantaram ‘A Portuguesa’. Nacionalismo bacoco? Não sejamos ridículos. Tratou-se, isso sim, de patriotismo saudável, e da recuperação de valores de solidariedade nacional. Todo este movimento demonstrou, também, que os portugueses podem mobilizar-se e unir--se à volta de um projecto colectivo que os sensibilize e entusiasme. Num momento de crise económica e social, de descrença e de desânimo, vale a pena voltar a acreditar que tal não só é possível como é necessário.
Uma palavra final sobre o “maldito” futebol. Nos últimos 25 anos fomos bicampeões do Mundo de sub-21, vencemos múltiplos campeonatos europeus dos escalões mais jovens, vencemos 2 finais do Campeonato Europeu de Clubes e, no exigente Campeonato Europeu de Selecções A, chegámos aos quartos-de-final em 1996, às meias-finais em 1984 e 2000 e à final em 2004.
Quem fez melhor do que nós e qual o sector de actividade que demonstra tal competitividade à escala global? Se, para além do mais, tivermos em linha de conta o facto de hoje o futebol profissional ser resultado de uma lógica de empresarialização, o que será preciso para que os nossos líderes o assumam como um sector estratégico?
Pedro Santana Lopes, que foi dirigente desportivo, talvez tenha a coragem de mandar às malvas os complexos intelectualóides dos seus antecessores. O povo que ama este desporto agradecerá.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
Por Carlos Rodrigues
Ninguém pedia que a Europa marchasse com Israel e os EUA para o Irão.
Enquanto o COI impedia homens biológicos de baterem em mulheres, por cá a gente entreteve-se com uma pseudo-traição na ‘Secret Story’ e a bolha mediática acha mal José Luís Carneiro pressionar pela libertação de presos políticos.
Hoje, o desafio não é reescrever o texto constitucional, mas cumprir o seu espírito.
Os filhos levam tempo até perceber que os pais também são humanos.
Somos dos países mais seguros. Porquê? Porque somos dos mais subdesenvolvidos.