Quando John Baird fez a primeira demonstração de TV a cores, em Londres, em 1928 (sim: 1928!), os espectadores foram brindados com a imagem de um homem a deitar repetidamente a língua de fora. Na minha opinião, de lá para cá, a programação – pelo menos nos canais abertos – não mudou uma vírgula. Pessoas de língua de fora no vídeo e pessoas de língua de fora a olharem para o vídeo. Actores, cantores e manequins são contratados para tripularem os programas. Tudo bem – caso se contentassem em puxar o lustro à fama e embolsar os milhões. Mas, não: armados em príncipes renascentistas, opinam sobre tudo, com uma versatilidade de canivete suíço. Dão dicas de medicina, pregam as maravilhas de dietas e professam causas ambientais pseudocientíficas. Poupem-me.
A tolice atingiu tal ponto que uma ONG britânica, a Sense about Science, lançou uma campanha para a difusão de informações correctas sobre saúde e ciência. Catedráticos da Universidade de Cambridge analisaram afirmações televisivas de VIP como Madonna, a modelo Elle Macpherson, o chef Jamie Oliver e Heather Mills (ex-senhora Paul McCartney), entre outros. Conclusão: para as celebridades, é menos arriscado participar em concursos de patinagem no gelo do que dar um pio sobre doenças ou ecologia. O conselho dos especialistas: verifiquem primeiro os factos. É arrepiante a leviandade, o fanatismo da fofoca. Nas manhãs da TV, algumas criaturas contam tudo o que ouvem assim que o ouvem, o que geralmente significa antes de que aconteça. Aliás, hoje em dia, o antónimo de falar não é ouvir – é esperar. Como alertava Confúcio, se Deus quisesse que falássemos mais do que ouvíssemos, tinha-nos dado duas bocas e uma orelha – e não o contrário.
Sei que, nas entrevistas de TV, depende do entrevistado. Com frequência, são sorrisos amarelos de um lado e olhares vidrados do outro. Ou perguntas quilométricas e respostas monossilábicas. Daí jorram os disparates. Sugiro cepticismo e independência. Será que aquela ideia ‘genial’ não é antes de jerico? Claro que uma verdade perde muito do seu encanto quando é descoberta por outra pessoa – mas, paciência. E, contra a parvoíce, sempre há o antibiótico da ironia. Uma vez, um desafecto meu ronronou-me: “Gostei do seu romance. Quem o escreveu para si?” E eu: “Fico radiante que o tenha apreciado. Quem o leu para si?”
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