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Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Juiz considerou desproporcionais medidas de coação pedidas pelo MP para arguidos detidos na Operação Influencer

MP pediu prisão preventiva para Diogo Lacerda Machado e Vítor Escária, mas juiz decidiu "à luz da pena que previsivelmente lhes virá a ser aplicada".

13 de novembro de 2023 às 22:35

O juiz de instrução Nuno Dias Costa considerou esta segunda-feira "claramente desproporcionais" as medidas de coação que foram pedidas pelo Ministério Público (MP) para os arguidos detidos na investigação aos negócios do lítio, hidrogénio e centro de dados de Sines.

O despacho desta segunda-feira do magistrado do Tribunal Central de Instrução Criminal culminou com a saída em liberdade do chefe de gabinete do primeiro-ministro, Vítor Escária, o consultor Diogo Lacerda Machado, amigo de António Costa, o presidente da Câmara de Sines, Nuno Mascarenhas, e os administradores da Start Campus Afonso Salema e Rui Oliveira Neves, que estavam detidos desde terça-feira.

A Diogo Lacerda Machado foi aplicada uma caução de 150 mil euros e a proibição de viajar para o estrangeiro (com entrega do passaporte), com esta última medida a ser igualmente imposta a Vítor Escária, enquanto os restantes três arguidos saíram apenas com a medida de coação de Termo de Identidade e Residência (TIR).

"Resta somente deixar expresso que as medidas de coação propostas pelo Ministério Público, nomeadamente da privação de liberdade, em relação aos arguidos Diogo Lacerda Machado e Vítor Escária, são claramente desproporcionais, sobretudo à luz da pena que previsivelmente virá a ser aplicada àqueles, não valendo aqui, por seu turno, considerações genéricas ou fórmulas estereotipadas", lê-se na decisão a que a Lusa teve acesso.

O MP tinha defendido prisão preventiva para os dois primeiros; cauções de 200 mil e 100 mil euros para Afonso Salema e Rui Oliveira Neves, respetivamente, bem como proibição de contactos com os restantes arguidos; e a suspensão do mandato, a proibição de contactos e a proibição de entrar nas instalações da autarquia para Nuno Mascarenhas.

A decisão do juiz do TCIC realçou, todavia, que "o perigo de fuga por parte do arguido Diogo Lacerda Machado é intenso e próximo", ao aludir aos filhos que vivem no estrangeiro e à sua ligação profissional à Guiné-Bissau, e que para Vítor Escária, "pela facilidade que demonstra em subsistir fora de Portugal, se verifica, em concreto, o perigo de fuga", razão pela qual proibiu ambos de se ausentarem para o estrangeiro.

O consultor e o agora ex-chefe de gabinete do primeiro-ministro estão "fortemente indiciados" por tráfico de influência. Em relação aos administradores da Start Campus, foram valorizados os indícios de tráfico de influência e oferta indevida de vantagem, visando a atuação destes dois últimos arguidos pelas refeições oferecidas aos ministros das Infraestruturas e do Ambiente, João Galamba e Duarte Cordeiro, respetivamente.

Porém, não foram considerados fortes os indícios de corrupção e prevaricação que o MP tinha apontado aos arguidos. E, sobre o autarca Nuno Mascarenhas, lê-se que "não se mostra indiciada a prática pelo mesmo de qualquer ilícito criminal".

No total, há nove arguidos no processo, incluindo o ministro das Infraestruturas, João Galamba, o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, Nuno Lacasta, o advogado, antigo secretário de Estado da Justiça e ex-porta-voz do PS João Tiago Silveira e a empresa Start Campus.

O processo está relacionado com a exploração de lítio em Montalegre e de Boticas (ambos distrito de Vila Real), com a produção de energia a partir de hidrogénio em Sines, Setúbal, e com o projeto de construção de um centro de dados (Data Center) na zona industrial e Logística de Sines pela sociedade Start Campus.

O primeiro-ministro, António Costa, que surgiu associado a este caso, foi alvo da abertura de um inquérito no MP junto do Supremo Tribunal de Justiça, situação que o levou a pedir a demissão, tendo o Presidente da República marcado eleições antecipadas para 10 de março de 2024.

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