Na petição os signatários consideram que "o 25 de Abril surge esbatido, diluído, quase ausente" das Festas de Abril, que integram a programação da EGEAC-Lisboa Cultura.
Uma petição intitulada "Festas de Abril sem Abril" já foi assinada por cerca de 600 agentes culturais de Lisboa, criticando o que consideram ser o "esvaziamento" e a "progressiva desvalorização" do 25 de Abril na programação municipal.
Na petição, a que a Lusa teve acesso, os signatários consideram que "o 25 de Abril surge esbatido, diluído, quase ausente" das Festas de Abril, que integram a programação da EGEAC-Lisboa Cultura.
Assinada à cabeça por Ana Sofia Paiva, João Monge, Pedro Fernandes Duarte e Tiago Santos, a petição conta com o apoio de nomes como André Gago, Carlos Mendes, Cristina Branco e Tiago Torres da Silva, estando ainda a circular entre agentes da cultura lisboeta.
"A forma como são apresentadas as chamadas Festas de Abril - celebrando 'o regresso do sol, das flores, da boa disposição, a vontade de sair de casa e de fazer coisas com os amigos' - desloca completamente o centro de gravidade daquilo que Abril verdadeiramente representa. Como se a data maior da nossa democracia pudesse ser suavizada até caber numa ideia genérica de festa da primavera", lê-se na petição, dirigida ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas (PSD).
Apontando à "responsabilidade política do executivo municipal", os peticionários fazem questão de dizer que a programação desenvolvida pela EGEAC responde a "uma orientação, uma prioridade, uma escolha sobre o que merece ser celebrado - e como".
A 12 de março, na página da EGEAC, empresa municipal de gestão cultural, apareciam em destaque as "Festas da Primavera", em vez das habituais "Festas de Abril", que estavam identificadas na programação para 2026 como um dos quatro blocos programáticos (seguindo-se as "Festas de Lisboa", as "Festas na Rua" e as "Festas de Natal").
Questionada pela Lusa sobre a mudança, a EGEAC confirmou, em email enviado a 17 de março, que "inicialmente" ponderou mudar o nome "Festas de Abril" para "Festas da Primavera", "procurando alinhar a identidade com outras programações em espaço público - como as 'Festas de Lisboa', as 'Festas na Rua' e as 'Festas de Natal' -- que não fazem referência direta a meses específicos".
Porém, "tendo em conta as iniciativas que vão integrar o programa deste ano, a decorrer entre 11 e 25 de abril, e o reconhecimento já consolidado do nome Festas de Abril", optou por manter a designação atual, "reforçando a ligação entre o nome e o período em que o evento acontece".
Na petição, os signatários insurgem-se com o que entendem ser a redução da "data maior" da democracia portuguesa a "uma ideia genérica de festa da primavera".
Denunciando uma "forma velada de diluir o significado de Abril", os peticionários consideram que, "num tempo em que os valores de Abril enfrentam desafios renovados, esperar-se-ia precisamente o contrário: mais cultura, mais memória, mais participação".
Em concreto, os signatários assinalam que, "ao contrário do que acontece em tantas cidades do país, pelo segundo ano consecutivo, em Lisboa, não se realiza o tradicional concerto na noite de 24 para 25 de Abril".
Esse momento - notam - "era mais do que um evento cultural: era encontro, era memória partilhada" e, por isso, "a sua ausência não é neutra".
E recordam que "Lisboa não é uma cidade qualquer no calendário de Abril: foi aqui que a madrugada de 25 de Abril de 1974 ganhou corpo, onde um povo inteiro se reconheceu capaz de derrubar o fascismo e mudar o seu destino", defendendo que essa "é uma responsabilidade democrática, contínua e exigente".
Recusando que Abril seja "um adereço sazonal" ou "um pretexto decorativo", os cerca de 600 agentes culturais prometem "ocupar a cidade com Abril - nas ruas, nas praças, nas vozes das pessoas", apelando à participação nas comemorações populares da Revolução.
"Abril não é uma memória distante. É uma exigência que se cumpre - ou se trai - todos os dias", reivindicam.
A Lusa voltou a questionar a EGEAC sobre o tema, dando conta da petição entretanto lançada. A gestora cultural respondeu esta segunda-feira não ter "nada a acrescentar para além do que foi já respondido".
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