Três semanas depois da passagem da tempestade Kristin, havia ainda telhados caídos, postes de iluminação derrubados, fios elétricos cortados, árvores partidas e detritos acumulados em todo o lado.
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Pequenas e médias empresas do concelho de Leiria, um dos mais afetados pelo mau tempo, começaram a retomar parcialmente a produção improvisando lonas nos telhados e recorrendo a geradores enquanto esperavam pelos apoios monetários que tardavam em chegar.
Três semanas depois da passagem da tempestade Kristin, havia ainda telhados caídos, postes de iluminação derrubados, fios elétricos cortados, árvores partidas e detritos acumulados em todo o lado.
Mas havia também empresas que se erguiam, ainda que a meio gás, e o trânsito voltava a circular pelas artérias de um concelho saído do estado de calamidade, mas ainda com muitos danos por reparar.
Na localidade de Gândara dos Olivais, a Baquelite Liz, fundada há 80 anos, é a mais antiga fábrica de plásticos de Leiria ainda em atividade - apesar de ter sido obrigada a uma pausa na produção devido ao corte de energia elétrica que só foi reposto mais de duas semanas após a intempérie.
Na madrugada de 28 de janeiro, o vento e a chuva fizeram cair uma parede e uma parte do telhado da unidade fabril, deixando a descoberto equipamentos de fabrico de caixas e contentores, grades, tubos, mangueiras e um sem número de artigos domésticos em plástico.
Os 15 trabalhadores do turno da noite saíram ilesos porque se recolheram quando a eletricidade foi cortada, momentos antes de a tempestade ter atingido o seu ponto máximo.
Quase três semanas depois, a Baquelite Liz funcionava a cerca de 30% da capacidade, tentando reerguer-se no meio dos destroços.
"Temos estado a ligar as máquinas gradualmente porque temos surpresas a toda a hora", disse à Lusa João Clemente, sócio e administrador da empresa.
Os danos causados pela chuva e pela humidade, nos equipamentos e nos edifícios, estavam ainda a ser apurados, mas os cálculos rondavam já os dois milhões de euros, um valor difícil de acomodar no balanço de uma empresa, de estrutura familiar, que fatura anualmente cerca de 7,5 milhões de euros.
Na Baquelite Liz, os serviços administrativos foram mais afetados do que a área fabril.
Depois do telhado, portas e janelas terem sido arrancados pelo vento, o pouco que sobrou foi tapado por plásticos e lonas, à espera da reconstrução que ninguém sabia quando seria possível.
Dificuldades no processamento atrasaram o pagamento dos salários de janeiro aos 75 trabalhadores, mas João Clemente acreditava que iria manter todos os postos de trabalho sem ter de recorrer ao 'lay-off' simplificado anunciado pelo Governo.
"Temos muito trabalho, felizmente. Espero que seja só um mês de paragem", afirmou o administrador, embora admitindo a existência de atrasos na entrega das encomendas aos clientes.
"De uma forma geral, os clientes têm colaborado e temos conseguido manter tudo", acrescentou.
Parcialmente destruído, ficou também o museu e o arquivo da Baquelite Liz, repositórios de um mostruário com oito décadas de existência que é parte integrante da história da empresa e da família que a fundou em 1946, há já três gerações.
Na fábrica das Rações Selecção, situada na Boa Vista, arredores de Leiria, só foi possível retomar a produção, a 20% ou 30% da capacidade, cerca de duas semanas depois da passagem da tempestade Kristin, com recurso a geradores.
A prioridade do administrador Rogério Campos, da mulher, dos filhos e dos 50 funcionários da empresa familiar foi tentar remendar cerca de 70% do telhado da área fabril, com lonas cedidas por uma empresa de material publicitário.
Só depois de salvaguardada a matéria-prima e o produto acabado é que foi iniciada a busca pelos potentes geradores que têm mantido a fábrica de rações a funcionar em dois turnos, entre as 7:00 e as 00:00.
"Estamos com custos muito acrescidos", admitiu Rogério Campos, referindo-se ao aluguer dos equipamentos e ao combustível necessário para manter os geradores até que a eletricidade seja reposta nas instalações.
Para não perder clientes, a administração subcontratou empresas concorrentes para produzir e embalar rações com a marca Selecção, assegurando o transporte até aos pontos de venda.
O prejuízo estará já muito perto de um milhão de euros, um montante que equivale a um décimo do volume de negócios anual da empresa.
A falta de mão-de-obra e de materiais para as reparações não permite saber quando é que a produção poderá ser retomada, "ao menos a 70 ou 80%", lamentou-se Rogério Campos.
Enquanto as ajudas públicas e os pagamentos da seguradora não chegavam, a Rações Selecção, como outras empresas da região, apenas podia contar com o apoio dos bancos de que é cliente.
O secretário-geral da Associação Portuguesa do Industriais de Alimentos Compostos para Animais (IACA), Jaime Piçarra, adiantou à Lusa que 30% das empresas do setor estão situadas nos 68 concelhos onde foi decretado o estado de calamidade.
"Na parte das infraestruturas, painéis solares e equipamentos, temos um reporte entre 15 a 20 milhões de euros" de prejuízos, segundo estimou.
Considerando que o Governo deveria "ajudar as empresas", Jaime Piçarra defendeu a criação de "um mecanismo de subvenções e moratórias" para o setor, em alternativa às linhas de crédito que implicam contrair dívida.
"Muitas das nossas empresas também têm animais e, em muitas delas, temos que acrescentar os prejuízos sofridos com a perda de animais, quer no setor avícola, quer na suinicultura", acrescentou.
No grupo agropecuário Aviliz, a prioridade foi conseguir chegar às explorações de aves, de suínos e de bovinos na manhã do dia 28 de janeiro.
"Os acessos estavam destruídos e havia centenas de árvores no caminho. Temos muitas explorações, tivemos muitas equipas no terreno a abrir caminho não só para carros ligeiros, mas também para o fornecimento de farinhas e de rações", contou Luís Rosário, diretor de produção.
Na exploração avícola que a Lusa visitou, em Casal Novo, freguesia de Amor, um pavilhão com 3 mil a 4 mil galinhas reprodutoras ficou praticamente destruído na noite da tempestade Kristin, deixando os animais expostos ao frio, à chuva e ao vento.
Muitos morreram nesse dia e nos dias seguintes, por falta de alimentação e de aquecimento, até ser possível instalar os primeiros geradores.
Aves, suínos e bovinos começaram a ser vendidos ou enviados para abate precoce, por falta de condições para assegurar a sua sobrevivência e tentar diminuir as perdas.
Quase três semanas depois da intempérie, a eletricidade ainda não tinha sido reposta na maioria das 30 explorações da Aviliz, e não havia qualquer previsão para isso suceder.
"A energia elétrica é que nos permite dar água, alimentação, aquecimento e ventilação aos animais. Para tudo dependemos da energia elétrica", observou o diretor de produção da Aviliz.
"Ninguém nos dá uma previsão, uma data aproximada, que nos permitisse gerir os espaços que temos inteiros, que nos permitisse gerir melhor as equipas e os recursos que temos para cuidar dos nossos animais como eles merecem", acrescentou.
O grupo Aviliz, fundado há 50 anos como uma exploração de pintos do dia emprega atualmente cerca de 150 pessoas nas diferentes empresas.
Ao prejuízo nas estruturas físicas, juntam-se as perdas no potencial produtivo, fazendo crescer a fatura até aos quatro a cinco milhões de euros.
"Para reconstruirmos e restabelecermos o nosso potencial produtivo, precisaremos de muitos mais apoios", conclui Luís Rosário.
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