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Correio da Manhã

Sociedade
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O que já se sabe sobre a origem da Covid-19?

Organização Mundial de Saúde admite que a hipótese mais provável é que o vírus SARS-CoV-2 tenha sido transmitido de um animal para o ser humano, mas ainda não identificou qual o animal na origem da pandemia.
Catarina Cruz 10 de Fevereiro de 2021 às 12:09
Organização Mundial de Saúde admite que a hipótese mais provável é que o vírus SARS-CoV-2 tenha sido transmitido de um animal para o ser humano, mas ainda não identificou qual o animal na origem da pandemia.
Por Catarina Cruz 10 de Fevereiro de 2021 às 12:09

A Organização Mundial de Saúde (OMS) revelou que a hipótese mais provável de transmissão do SARS-CoV-2, o vírus na origem da Covid-19, tenha sido de um animal para o ser humano, mas ainda não conseguiu identificar o animal na origem do contágio. A teoria de a pandemia ter começado com uma fuga laboratorial é totalmente afastada pelos especialistas, que admitem que o vírus já poderia circular noutras regiões antes de dezembro de 2019, mas não na cidade de Wuhan.

Estas são as primeiras conclusões dos peritos da OMS que estiveram um mês em Wuhan a investigar, juntamente com especialistas chineses, qual a origem do vírus da Covid-19, cujo primeiro caso foi detetado nesta cidade chinesa em dezembro de 2019 e se espalhou pelo mundo, tendo já feito mais de 2,3 milhões de mortos.  

Investigação OMS Whuan
Investigação OMS Whuan
Investigação da OMS em Wuhan
Investigação da OMS em Wuhan
Investigação da OMS em Wuhan
Investigação OMS Whuan

As quatro hipóteses para a origem do vírus

Peter Ben Embarek, que lidera a missão da OMS na China, avançou com quatro hipóteses para a transmissão do vírus ao ser humano, sendo uma delas a transmissão direta por via animal. Os estudos apontam para que a origem da SARS-CoV-2 possa estar nos morcegos, mas que é improvável que estes estivessem em Wuhan e que tenham sido os responsáveis pela transmissão direta do vírus para os humanos. Os morcegos e os pangolins eram apontados, desde o início, como possíveis fontes do contágio ao Homem, mas a investigação da OMS revela que as amostras de coronavírus identificadas nestas espécies não são "suficientemente idênticas" ao SARS-CoV-2.

Outra hipótese avançada pelos peritos é que tenha existido uma espécie intermediária, mais próxima do Homem, que tenha sido hospedeira do vírus. Esta é considerada uma das hipóteses mais prováveis pela investigação, mas os especialistas sublinham que requer mais estudos.

 
                           

A teoria que a China tem defendido, de que o vírus teria sido transmitido através de alimentos congelados importados, não é descartada pela OMS, que sublinha que é necessário investigar mais esta hipótese. "Sabemos que o vírus pode sobreviver em condições que são encontradas nos ambientes gelados, mas ainda não é possível perceber se o vírus pode ser transmitido para os humanos", ou em que condições, sublinhou Peter Ben Embarek.

Quanto à hipótese de a origem do vírus estar na fuga de um laboratório – uma hipótese que tem alimentado teorias da conspiração e que foi, por diversas vezes, defendida pelo ex-presidente dos EUA, Donald Trump – é apontada como "altamente improvável" pela equipa de investigadores independentes da OMS, que dizem que esta hipótese "não exige mais investigação".

Vírus já estaria a circular noutras regiões antes de dezembro de 2019

Liang Wannian, que lidera a equipa de especialistas chineses envolvidos nesta investigação conjunta, revelou que já poderiam existir infeções pelo novo coronavírus anteriores a ter sido identificado o primeiro caso em Wuhan, em dezembro de 2019, e que estes casos teriam sido detetados "várias semanas antes" mas não teriam sido reportados. "Isto sugere que não podemos descartar a hipótese de que o vírus já estaria a circular noutras regiões e que esta situação não foi reportada", destaca.

Não podemos descartar a hipótese de que o vírus já estaria a circular noutras regiões e que esta situação não foi reportada

Liang Wannian, líder da equipa de especialistas da China

O vírus poderia circular noutras regiões antes de dezembro de 2019, mas não em Wuhan. Peter Ben Embarek, que lidera a missão da OMS na China, revela que foram analisadas amostras de sangue e que "não foram encontradas evidências de grandes surtos que pudessem estar relacionados com casos de Covid-19 antes de dezembro de 2019 em Wuhan".

O mercado de Huanan, que inicialmente foi apontado como possível origem do contágio, foi, de facto, um dos primeiros focos de transmissão do SARS-CoV-2, mas, segundo os peritos, não há qualquer evidência de que tenha estado na origem da pandemia. Quando o primeiro caso foi identificado no mercado, o vírus também já circulava fora deste espaço.

Durante a investigação no terreno, a equipa de peritos da OMS visitou locais chave como o mercado de Huanan, onde se registou o primeiro surto, ou o Instituto de Virologia de Wuhan, que tem conduzido investigações sobre o coronavírus.

Dominic Dwyer, especialista em doenças infeciosas que integra a equipa da OMS, acredita que, provavelmente, serão necessários vários anos para compreender totalmente a origem da Covid-19.

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O infeciologista Francisco Antunes comenta as conclusões dos investigação da Organização Mundial de Saúde

Infeciologista explica como se segue o rasto de um vírus até à sua origem

"Ainda estamos numa fase muito preliminar da investigação que está a decorrer na China", destaca o infecciologista Francisco Antunes, que, perante as conclusões da Organização Mundial de Saúde, sublinha que "o que é evidência científica é que o ambiente em que atualmente vivemos, e a globalização, são os principais fatores que evidenciam o risco de terem ocorrido, nestes últimos 20 anos, três pandemias associadas ao coronavírus e ao risco de ocorrem novas pandemias, por este vírus ou por vírus diferentes".

O especialista em doenças infeciosas do Instituto de Saúde Ambiental da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa destaca que para este estudo, em que se segue o rasto do vírus para chegar à sua origem, "é necessária quase uma investigação policial". A metodologia usada passa por caracterizar os genes identificados nos vírus, "que são as suas impressões digitais", fazer um "mapa da constituição dos genes do vírus", avaliar a sua evolução e modificação ao longo do tempo e compará-los com as dos animais sob suspeita.

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O especialista em doenças infeciosas Francisco Antunes explica o trabalho de pesquisa que é feito para descobrir a origem de um vírus

No caso de Wuhan, o pangolim era apontado deste o início como um possível hospedeiro do vírus e intermediário entre o morcego e o ser humano, mas as características genéticas do vírus no pangolim revelaram-se "substancialmente diferentes das encontradas nos primeiros casos identificados no mercado de animais vivos de Wuhan".

Os peritos da OMS visitaram o Instituto de Virologia de Wuhan, o mercado de Huanan e locais onde os animais consumidos no mercado são criados, "até havendo a hipótese de na cadeia de transmissão poderem estar incluído coelhos ou outros animais", o que até agora não se confirmou. "É necessário identificar qual o animal que alberga um coronavírus com características muito semelhantes ao que foi identificado" no ser humano na China.

Para Francisco Antunes, saber qual o "reservatório animal deste vírus" permite ter informação para prevenir outras pandemias, mas acredita que é necessário mais trabalho e mais tempo para investigar.

Outras investigações e teorias sobre a origem da Covid-19

Coronavírus teve origem em laboratório
A OMS colocou de parte da hipótese de a pandemia de Covid-19 ter tido origem na "fuga" do vírus de um laboratório de Wuhan, mas a ideia de que o vírus possa ter sido criado por cientistas tem alimentado várias teorias da conspiração ao longo dos últimos meses.

Donald Trump, ex-presidente dos EUA, foi um dos principais impulsionadores desta teoria. No início de maio de 2020, garantia "ter provas" de que o novo coronavírus era proveniente de um laboratório na cidade chinesa de Wuhan, mas "não podia mostrar" as provas. 

Sim, vi [provas de que o coronavírus teve origem num laboratório de Wuhan]

Donald Trump
Surto com origem em outubro de 2019
Uma equipa de cientistas norte-americanos avançou ter descoberto que o surto de Covid-19 começou em outubro de 2019, na China, meses antes de Pequim alertar o mundo para a doença.

Os cientistas realizaram um estudo no qual analisaram milhares de pacientes infetados com o vírus e rastrearam a variante "mãe" de todas as infeções por Covid-19. De acordo com a investigação, os cientistas concluíram que a variante "mãe" data outubro de 2019.

Parente do vírus da Covid-19 encontrado em morcegos no Camboja e Japão
Investigadores de dois laboratórios na Ásia descobriram um parente próximo do SARS-CoV-2, o vírus responsável pela doença Covid-19, em morcegos no Camboja e no Japão. 


De acordo com a revista científica Nature, este "parente" do vírus foi encontrado em morcegos que estavam armazenados num congelador no Camboja. Também no Japão foi encontrado este vírus em fezes de morcego congeladas. 
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