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Fecho de interligações e uso de gás aumentaram custos e emissões durante o apagão

Presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis afirmou que esforço foi suportado pelos consumidores

03 de fevereiro de 2026 às 19:48

O presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN) afirmou esta terça-feira que a gestão do sistema elétrico após o apagão de 28 de abril de 2025 resultou "num incremento das emissões e dos custos" suportados pelos consumidores.

Em audição no Grupo de Trabalho parlamentar sobre o colapso ibérico, Pedro Amaral Jorge enquadrou o debate no desenho do sistema energético europeu, salientando que a União Europeia aposta numa maior incorporação de fontes renováveis e que a diretiva estabelece a incorporação de "42,5% do número de renováveis no consumo de energia".

Segundo o responsável, associar esse modelo ao colapso elétrico ibérico "não está absolutamente comprovado", defendendo que "o apagão em Espanha surge por um erro de operação da rede elétrica".

Nesse contexto, explicou que Portugal já registou dias com elevada incorporação de renováveis --- em determinadas horas até perto de 100%, contando com a hídrica --- sem que o sistema fosse abaixo, acrescentando que a produção nuclear, apesar de existente em Espanha, "não fez nada para resolver" o problema no dia do apagão, por ser "não flexível".

Foi à luz desse enquadramento que Pedro Amaral Jorge criticou as decisões técnicas tomadas nos dias seguintes ao colapso. O encerramento das interligações com Espanha obrigou Portugal a substituir importações de eletricidade renovável por produção através de ciclos combinados a gás.

"Aquela potência elétrica que importamos de Espanha tivemos que a produzir através dos combinados de gás", afirmou, acrescentando que estas restrições técnicas "não vão marcar tecnologia, mas são pagas pelo consumidor", destacando também o incremento das emissões de dióxido de carbono (CO2).

O responsável questionou a eficácia dessa resposta, salientando que a ativação de soluções convencionais, incluindo centrais com capacidade de arranque autónomo, ocorreu num contexto de incerteza sobre as causas do apagão e sem prova de que a alegada falta de inércia estivesse na origem do colapso.

"Isso não está absolutamente comprovado", sublinhou, recorrendo a uma analogia: "Se tem uma dor de cabeça, tome mais aspirina. Não sei se todas as dores de cabeça passam por uma aspirina."

Pedro Amaral Jorge enquadrou ainda estas decisões no tema da segurança de abastecimento, defendendo: "temos de pensar que a segurança de abastecimento, principalmente no padrão geográfico que nós temos, só pode, efetivamente, conseguir ser disponibilizada se nós tivermos controle sobre os energéticos que precisamos".

Durante a audição, o presidente da APREN contrapôs leituras simplistas sobre o sistema elétrico e defendeu uma abordagem assente em redes inteligentes, armazenamento e flexibilidade do consumo, afirmando que o sistema tem de incorporar "armazenamento, flexibilidade do consumo e integração", num cenário em que os combustíveis fósseis aumentam custos e dependência externa.

Pedro Amaral Jorge conclui sublinhando a necessidade de acelerar o licenciamento e a modernização das redes elétricas, com processos mais eficientes e digitais que permitam aplicar o modelo europeu à realidade portuguesa.

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