Sete dias depois da tempestade que arrasou a região de Leiria, limpam-se destroços no Parque de Campismo de S. Pedro de Moel.
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Rulotes de rodas para o ar, casas pré-fabricadas que voaram mais de 50 metros e 'bungalows' completamente destruídos são o cenário deixado pela depressão Kristin nos parques de campismo entre Alcobaça e a Marinha Grande.
Sete dias depois da tempestade que arrasou a região de Leiria, limpam-se destroços no Parque de Campismo de S. Pedro de Moel (Marinha Grande), onde o cenário de destruição "quase faz acreditar em milagres", admitiu Marcel Ourives, encarregado do espaço concessionado à Campigir.
Das 35 pessoas que se encontravam no parque, nove dos quais funcionários, "nenhuma ficou ferida", ainda que um casal tenha "ido ao hospital, apenas com escoriações", relatou.
Dois gatos, "que pressentiram perigo e fugiram", deram o alerta a Jorge Azevedo, funcionário a residir numa das 'mobile homes' (casas pré-fabricadas) do parque, para "fugir também", pouco tempo antes de a casa ter ficado "virada de rodas para ar".
"Quando percebi que a casa acabaria por tombar, fugi até à capela, e depois até à casa de um colega", conta o homem, de 62 anos, que só no dia seguinte viu "a casa com o teto no chão, a sanita e o lava-loiça pendurados no ar, e todo o interior partido, desde os móveis à televisão".
Quando viu a casa, também Marcel temeu o pior.
"O Jorge esteve desaparecido, até depois das 09:00, não o encontrávamos, não conseguíamos ligar para o telemóvel, não sabíamos o que lhe tinha acontecido", descreveu.
Para aumentar os temores, "a casa ao lado estava no chão, destruída como se fosse feita de papel", disse Marcel. Com a agravante de ser "novinha em folha, acabada de instalar na segunda-feira".
A casa, um investimento de cerca de 20 mil euros, "era do senhor Vítor, cliente que há anos tem aqui uma rulote e que resolveu fazer num 'up-grade', porque estava cansado de montar e desmontar o 'avançado' da caravana", contou.
Na segunda-feira, Marcel fotografou a casa e mandou foto ao dono, avisando: "Já cá está a casa nova". Mas, na quarta-feira, esta já não existia e "o senhor Vítor nem a chegou a ver", lamentou.
Letícia Estigarrilia, que nessa noite dormia numa caravana, com o marido e filha de 12 anos, "nem queria acreditar", quando, de manhã, viu a casa do vizinho Vítor.
"A noite de horror" fazia temer que "houvesse muita devastação", depois de "duas horas de escuridão, com o vento a fazer abanar tudo" e a filha a "querer sair para esperar dentro do carro, com medo que a caravana se virasse".
Não virou, mas "o frigorífico veio parar à estrada e o avançado não tem conserto", diz a mulher, que ainda não consegue quantificar os estragos.
"Agora, se soprar um vento penso logo num furacão", comentou.
Dos oito bungalows do parque "apenas um está semi-operacional, três foram levantados do chão e perderam-se no mato, e os restantes estão despedaçados", contabilizou Marcel, estimando que os estragos "vão ultrapassar um milhão de euros".
No bar do parque desapareceu o telhado, portas, janelas e o mobiliário, mas caricatamente, numa das paredes continua "pendurado um relógio, e noutra divisão uma árvore de Natal artesanal, feita por um cliente, que não sofreu qualquer estrago", afirmou Bruno Valdez, responsável pelo estabelecimento.
Foi na casa de Bruno que Jorge se refugiou, apesar de também ali a tempestade ter levado "algumas telhas" e feito "entrar muita água" na habitação que, "por ser de alvenaria, era mais segura".
Para um vigilante que estava de serviço, "foi a cozinha da receção que serviu de abrigo, porque os vidros partiram-se todos e ele escondeu-se até o vento passar", contou Marcel, também ele morador no parque mas, "felizmente, numa casa que não teve danos".
Depois da noite "acordado a ver voar lonas, cadeiras, telhas", o encarregado do parque em coordenado os trabalhos para colocar de pé as casas e caravanas.
Na sua casa, "fazem-se as refeições, com os enlatados que foi possível salvar da mercearia e do bar, para alimentar os trabalhadores que estão a fazer tudo para que o parque volte a ficar operacional".
"Não podemos contar com mais ninguém", lamentou Marcel, que no dia seguinte à tempestade foi pedir ajuda aos bombeiros e à GNR, mas, "ainda não apareceu cá ninguém, nem da câmara".
Esse é também o lamento de Diogo Pereira, encarregado do Parque de Campismo da Praia da Vieira (Marinha Grande), concessionado à Horizonte Itinerante.
"Uma 'mobilehome' voou e ficou no meio da estrada", além das "lonas, portas, janelas e coberturas destruídas" no parque, onde "vai ser preciso refazer a instalação elétrica", conta, explicando que, aos prejuízos da empresa se juntam os dos 128 clientes.
Destes, António Gonçalves, veio hoje de Ourém, para ver os estragos no alojamento de praia, que se somam aos da casa da família, onde "voaram telhas".
Vera Lopes e Adriano Pinto, que vivem em permanência no parque com os dois filhos, de 3 e 4 anos, só tiveram "um buraco no teto, feito por uma telha que veio a voar, de outra rua".
A precária casa onde vivem todo o ano, salvou-se porque Adriano "a forrou toda com madeira para ser mais resistente".
Mas, a tempestade que os deixou sem água, sem luz e sem comunicações, vai deixar marcas.
A filha "que já tinha deixado fraldas, ficou tão assustada que voltou a usar". E o marido, funcionário de um estaleiro, "está há uma semana sem trabalhar, e sabe-se lá se o patrão o vai chamar".
No parque de campismo da Praia da Vitória, onde uma caravana se voltou e provocou um ferido grave, a casa continua tombada, no meio de tantas outras, deslocadas e partidas.
A cerca que delimita o parque está partida, a toda à volta, mas no espaço gerido pela Junta de freguesia de Pataias, hoje só entraram os trabalhadores que retiravam árvores e destroços.
Jornalistas, "só com autorização da junta", explica o funcionário, vincando que se limita "a cumprir as ordens".
A orientação deste para "ligar para a junta" é que continua impossível de cumprir na localidade ainda sem comunicações. E sem "autorização da junta para entrar", resta ver de fora o cenário de destruição deixado pela depressão Kristin.
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