Investigador explicou que os jovens fazem depender a sua decisão sobretudo dos transportes, do mercado de trabalho e da participação cívica.
Quase 80% dos jovens das zonas rurais europeias gostaria de viver, estudar ou trabalhar nos seus territórios de origem ou nas proximidades, desde que estes reunissem algumas condições, revelou-se num estudo esta quinta-feira divulgado.
Em declarações à agência Lusa, o investigador Francisco Simões, coordenador científico do relatório europeu sobre a juventude rural, explicou que os jovens fazem depender a sua decisão sobretudo dos transportes, do mercado de trabalho e da participação cívica.
No estudo, refere-se que 76% dos jovens rurais querem ficar nas suas terras, mas, segundo Francisco Simões, para isso "era importante haver investimento de política pública nessas três áreas".
"Vieram para ficar? As transições da juventude rural antes e depois da pandemia de Covid-19" é o nome do relatório elaborado no âmbito de uma parceria entre o Conselho da Europa e a Comissão Europeia.
O objetivo foi analisar como os jovens rurais de 14 países europeus, com idades entre os 18 e os 30 anos, fizeram a transição para a idade adulta no período pré e pós-pandemia, de 2019 a 2023.
No que respeita aos transportes, Francisco Simões exemplificou com "a possibilidade de os municípios conseguirem implementar e apoiar sistemas de partilha de viatura própria ou transportes mais ajustados à realidade, como redes de miniautocarros".
"Países como a Irlanda começam a investir nesse tipo de soluções", contou à Lusa, explicando que os jovens, ainda que fiquem a viver nas zonas rurais, "procuram trabalho nas zonas urbanas mais próximas".
O coordenador científico disse que "uma das questões que está evidente no estudo é a existência de um desalinhamento entre aquilo que os mercados de trabalho rurais oferecem em termos de áreas e setores prioritários, os interesses que os jovens manifestam e a oferta formativa".
"Ainda é muito comum as entidades formadoras que estão nestes territórios terem ofertas à medida do corpo docente e não dos diagnósticos feitos e das necessidades quer das empresas, quer dos jovens", lamentou.
Neste âmbito, será preciso "trabalhar muito esse alinhamento, ajustando às oportunidades que podem emergir, como alguns setores ligados à economia verde".
Segundo Francisco Simões, "as empresas têm muita dificuldade em conseguir atrair ou recrutar profissionais intermédios que possam trabalhar em áreas ligadas, por exemplo, à economia circular".
Outro aspeto central do estudo é que "o fator mais associado à vontade de permanecer tem a ver com a necessidade de manter ligação às redes informais, à família, aos vizinhos, à comunidade", frisou.
E, segundo o investigador do Centro de Investigação e Intervenção Social do Instituto Universitário de Lisboa, "esse potencial raramente é transformado em política pública".
Para este investigar, devem "criar-se possibilidades efetivas de os jovens, desde muito cedo, estarem civicamente envolvidos na comunidade".
Francisco Simões disse à Lusa que o resultado deste estudo foi surpreendente, uma vez que, dos mais de 2.500 participantes, "a maior parte tem nível educativo elevado".
"Normalmente, esses eram os que manifestavam maior vontade de sair (dos territórios de origem) e o relatório mostra o oposto", afirmou.
O estudo mostrou também que a vontade de viver, estudar ou trabalhar nos territórios de origem não difere caso seja homem ou mulher, nem se o jovem integrar a faixa etária 18/24 anos ou 25/30 anos.
"A nossa interpretação é que terá a ver com o aumento exponencial dos custos de vida nas zonas urbanas, sobretudo de habitação. Neste momento, a permanência (nas zonas rurais) é considerada mais viável".
Apesar de progressos como o aumento da participação do ensino superior e a redução da taxa de jovens "que não estudam, não trabalham, nem frequentam formações", este estudo revelou "um declínio acentuado da população jovem nas zonas rurais, assim como elevadas taxas de desemprego e de participação cívica".
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