Vídeo de 15 segundos tem causado furor – e preocupado a indústria do cinema com a aparente revolução tecnológica em curso.
Em 2023, um vídeo do ator Will Smith a 'comer' um prato de esparguete fez as rondas nas redes sociais. Gerado através de um programa de Inteligência Artificial, a ideia na altura passava por mostrar, com algum humor à mistura, as limitações da tecnologia que, mesmo perante a evolução rápida a que se vinha assistindo e a novidade de plataformas como o ChatGPT ou o Midjourney, era ainda incapaz de simular de forma convincente o movimento humano, uma arena que parecia permanecer um território exclusivo à criação humana.
Menos de três anos depois, um novo vídeo tem causado furor, com reações completamente opostas: 15 segundos, retratando duas das maiores estrelas de Hollywood – Brad Pitt e Tom Cruise – numa aparente luta final de um qualquer blockbuster de ação. Tudo gerado através de um programa de Inteligência Artificial de origem chinesa.
"Isto foi um prompt [o comando que se dá a um programa de Inteligência Artificial para que faça algo] de duas linhas", afirmou no X Ruairi Robinson, realizador de curtas e longas-metragens com uma nomeação ao Óscar no currículo, que partilhou originalmente este e outros vídeos. O programa utilizado, o referido Seedance 2.0, é da autoria da tecnológica ByteDance, empresa chinesa criadora do Tiktok.
A atenção redobrada que recaiu sobre a empresa após a publicação viral desta luta tem feito soar os alarmes em Hollywood, com vários estúdios a apontar os perigos desta tecnologia e a alegar violações de direitos de autor. Compreende-se: é preciso fazer um esforço para detetar eventuais erros na simulação, e a um olho destreinado a sequência pode mesmo parecer real.
A própria imagem de Will Smith e do prato de esparguete, tornada entretanto numa espécie de 'barómetro' da geração de vídeo em IA, atesta a sua rápida evolução:
A situação levou já a uma queixa formal da Motion Picture Association (MPA) contra a ByteDance e o seu programa, exigindo que este deixe de estar disponível ao público. "Ao lançar um serviço que opera sem quaisquer limites contra abusos, a ByteDance está a desvalorizar leis estabelecidas de direitos de autor que protegem os direitos dos criadores e formam a base de milhões de empregos americanos", pode ler-se na declaração, citada pela Variety.
A Seedance e o futuro da IA em Hollywood
Disponibilizada este mês de fevereiro, a versão 2.0 do programa de IA destaca-se pela simplicidade de uso e a aparente fidelidade de resultados. Relatos nos media chineses indicam também que tem requerimentos computacionais bastante inferiores aos de programas semelhantes oriundos dos EUA, numa dinâmica que tem sido comparada à do lançamento do Deepseek, que no início de 2025 apresentou resultados semelhantes aos do ChatGPT ou Gemini com uma fração dos custos de performance.
Ainda que não estando inteiramente disponível no Ocidente, o lançamento da plataforma chegou rapidamente aos ouvidos dos maiores nomes da indústria, em grande medida devido à partilha de conteúdos com personagens e marcas registadas.
Na passada sexta-feira, a Disney – que, importa referir, assinou há poucos meses um acordo com a norte-americana OpenAI para o uso exclusivo das suas personagens na plataforma Sora – tornou-se mesmo no primeiro estúdio a agir judicialmente, enviando à ByteDance uma carta cease-and-desist, considerando a atuação da ByteDance "totalmente inaceitável" e "a ponte do icebergue" de um problema que tem marcado a agenda em Hollywood nos últimos anos, de acordo com a Axios.
Recuando a 2023, as greves dos sindicatos dos atores e argumentistas da indústria de cinema e televisão dos EUA tinha como um dos seus pontos fundamentais a implementação de regras e garantias que protegessem os direitos de imagem e de propriedade intelectual de atores e criativos.
A paralisação que durou vários meses terminou com um acordo entre representantes laborais e os principais estúdios norte-americanos, mas desenvolvimentos recentes têm voltado a fazer soar os alarmes. A criação de Tilly Norwood, uma 'atriz virtual', gerou polémica e debate no ano passado, com agências de talentos a mostrar interesse em representar a 'atriz' e grupos de trabalhadores da indústria a criticar a sua utilização.
Certo é que são cada vez mais os profissionais da indústria a anunciar projetos baseados em maior ou menor grau na Inteligência Artificial. Recentemente, o realizador Darren Aronofsky, responsável por filmes como Requiem for a Dream, O Wrestler ou Cisne Negro, revelou estar a trabalhar numa série documental em parceria com a Google, que reconstitui virtualmente os eventos da guerra civil norte-americana. Antes, a atriz Natasha Lyonne fundou a Asteria, uma empresa de produção inteiramente dedicada a projetos baseados em IA.
Numa aparente aquiescência aos receios da indústria, a ByteDance já veio afirmar que irá implementar restrições ao uso da sua plataforma por forma a salvaguardar os interesses dos estúdios. "Estamos a tomar medidas para fortalecer os limites atuais à medida que trabalhamos para impedir o uso não-autorizado de propriedades intelectuais e direitos de imagem por parte dos utilizadores", afirmou um porta-voz da empresa, citado pela CNBC.
Parece, contudo, ser aparente que esta história está apenas a começar. Ou não estivesse a empresa na "fase final" de desenvolvimento de uma 'versão 3.0' do Seedance. Os detalhes são ainda muito escassos, mas alguns leaks que têm sido divulgados por internautas chineses indicam que essa futura versão poderá representar um avanço significativo da tecnologia atual, reduzindo novamente a performance e aumentando substancialmente a complexidade dos clips gerados, que poderão mesmo chegar a ter vários minutos.
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