Apesar das fracas audiências, a RTP mantém a aposta na ficção nacional e prepara novas temporadas de ‘Voo Directo’ e ‘Pai à Força’. Em Maio chega ‘Sagrada Família’
A RTP vai continuar a apostar numa ficção nacional capaz de se distinguir da oferta da concorrência, ou, melhor dizendo, das novelas. Contudo, as audiências de séries como ‘Voo Directo’ (que chegou ao fim na sexta-feira passada), ‘Conta-me Como Foi’ (exibida ao domingo em horário nobre) e ‘Maternidade’ (ao domingo pelas 19h00) levantam dúvidas sobre se o investimento da televisão pública neste tipo de produções compensa realmente. Apesar de tudo, a RTP vai manter esta estratégia e já prepara novas temporadas de ‘Pai à Força’ e ‘Voo Directo’, assim como várias estreias.
Segundo dados da Marktest, entre 1 de Janeiro e 11 de Abril de 2011, a audiência média destas três séries ficou abaixo dos 700 mil espectadores, com um share que oscila entre os 16,9% (‘Voo Directo’) e os 22,4% (‘Maternidade’). Os números, porém, não parecem preocupar José Fragoso, director de programas da RTP 1. "Não podemos analisar os resultados desta maneira mas dia a dia. Temos episódios que são vistos por mais de um milhão de pessoas", explica à Correio TV. "Os resultados, em geral, são excelentes. Digo isto porque as séries têm uma possibilidade de repetição que as novelas não têm. O que significa que a exibição e a reposição de um episódio pode registar mais de 1,5 milhões de espectadores. É neste potencial que temos de pensar", acrescenta.
Má escolha de horários, fraca qualidade das produções e cortes orçamentais são alguns dos motivos apontados para justificar estes resultados por Felisbela Lopes, pró-reitora da Universidade do Minho, que defende que "a ficção vê--se por habituação" e alerta para o facto de ser "difícil fazer concorrência a produtos do mesmo género oferecidos pela concorrência no mesmo horário". A investigadora na área dos ‘media’ refere-se a ‘Voo Directo’, uma série semanal protagonizada por Soraia Chaves, Maya Booth, Érica Chissapa e Micaela Reis, sobre o quotidiano de quatro hospedeiras que, à sexta-feira, concorria directamente com as novelas da TVI, primeiro com ‘Espírito Indomável’ e recentemente com ‘Anjo Meu’. "É difícil concorrer com produtos televisivos que criam habituação ao longo da semana e que são líderes de audiência", afirma sobre a série, que, no período em análise, registou uma audiência média de 671 700 espectadores, o que corresponde a 7,1%, e um share de 16,9%. No que respeita a ‘Conta-me Como Foi’, Felisbela Lopes diz que a série, protagonizada por Rita Blanco e Miguel Guilherme, que retrata factos sociais, económicos e políticos do País desde 1968 até ao 25 de Abril de 1974, sempre foi um risco. "Estamos a falar de um produto que tem como público-alvo as pessoas a partir dos 35 anos, que ainda têm algumas referências daquela época." Eduardo Cintra Torres, crítico de televisão, não concorda com esta ideia e diz que ‘Conta-me Como Foi’ atrai todas as gerações. "Existe uma larga franja de juventude que acompanha a série", assinala, apontando o desinvestimento da RTP na produção como um dos factores que explica o seu declínio. "A estação cortou no orçamento, houve menos atenção na produção, e isso reflectiu--se na perda de espectadores. Geralmente, quando uma série tem sucesso o investimento é reforçado. É o que acontece no estrangeiro. Aqui faz-se o contrário. É pena", remata Eduardo Cintra Torres, que considera ‘Conta-me Como Foi’ um produto de ficção que se distingue dos outros. "É o produto que mais se aproxima do serviço público." A série, produzida pela SP Televisão, teve uma audiência média de 664 100 espectadores (7%) e 17,1% de share. O melhor resultado de ‘Conta-me Como Foi’, que agora se aproxima do fim, foi registado a 18 de Janeiro de 2009, com 10,4% de audiência média e 23,7% de share. No que respeita a ‘Maternidade’, Cintra Torres considera que os resultados estão em sintonia com a qualidade da série, que, à semelhança de ‘Voo Directo’, diz ser "bastante fraca". Já Felisbela Lopes afirma compreender o propósito de oferecer ficção nacional num horário diferente. "Não sei, contudo, se a troca desta série por outro formato, como, por exemplo, um concurso, teria melhores resultados. Tenho dúvidas. Por outro lado, parece-me positivo a RTP querer investir numa grelha diversificada. Por outro lado, é preciso que essa diversidade opere com as grelhas concorrentes."
Apesar destes resultados, a RTP vai continuar a apostar forte na produção de séries de matriz histórica e contemporânea, assim como na produção de telefilmes e no apoio ao cinema português. "O investimento nas séries tem um resultado artístico, pois são formatos que deixam marca durante muitos anos, enquanto que as novelas desgastam-se. Além disso, permitem aos guionistas, actores e equipa de produção trabalharem em conteúdos mais exigentes, em textos mais trabalhados. É esse o caminho que a RTP deve trilhar", adianta à Correio TV José Fragoso. O director de programas adianta que, em breve, a aposta na ficção nacional será reforçada com a estreia de novas produções. No início de Maio, chega ‘Mistérios de Lisboa’, uma minissérie de seis telefilmes adaptada da longa-metragem do chileno Raúl Ruiz, sobre a sociedade portuguesa de finais do Século XIX, com Maria João Bastos e Adriano Luz. Também no próximo mês, estreia ‘A Sagrada Família’, uma sitcom da Mandala com Simone de Oliveira, Guida Maria, Vítor Norte e Ana Brito e Cunha. Ainda sem data de estreia continua ‘Velhos Amigos’, uma série sobre a aventura de três idosos e um rapaz de nove anos que partem à descoberta do País. Luís Alberto, Orlando Costa, João Maria Pinto e Miguel Jesus formam o elenco. No que se refere à ficção histórica, José Fragoso adianta que estão a ser preparadas duas minisséries, uma sobre a morte de Humberto Delgado e outra sobre as invasões napoleónicas, que "surgem na sequência do que fizemos com o centenário da República".
HUMOR É BEM RECEBIDO
Os novos programas de humor da RTP, exibidos em horário nobre, à quinta e à sexta-feira, respectivamente, superam as audiências das séries. ‘Portugal Tal & Qual’, de João Paulo Rodrigues e Pedro Alves, estreou a 24 de Março e regista uma média de 730 300 espectadores e 18,5% de share. Já ‘Estado de Graça’, com Maria Rueff e Joaquim Monchique, estreou a 1 de Abril e tem uma média de 814 300 espectadores e 21,7% de share.
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