O escritor Gonçalo M. Tavares sentou-se com o ator Miguel Guilherme para uma conversa sobre o teatro, o humor, a inteligência artificial, a mentira e a condição humana, mas sobretudo sobre a importância do texto.
No âmbito da iniciativa 21 Conversas para o Século XXI, da Caixa Geral de Depósitos, encontraram-se em Almeirim dois mundos distintos, a literatura, através do escritor Gonçalo M. Tavares, que moderou, e a representação, com o ator Miguel Guilherme.
O ator disse que, no seu trabalho de ator, “talvez o mais enigmático, não sei se também quem assiste pensa nisso, é como um ator se entusiasma a repetir a mesma peça, as mesmas falas dia após dia”. Confessou que chegou a fazer uma peça, Arte, durante mais de um ano. Nas sessões finais, “aquelas palavras já magoavam o cérebro, já não se consegue, já ferem, já não se suporta mais aquelas palavras, já não se suporta mais”.
O teatro, na visão de Guilherme, é também um balão de oxigénio pessoal. “Já me aconteceu ter um dia mau, mesmo péssimo, e ir fazer aquele espetáculo e salva-me o dia. Há uma dissociação da vida, da realidade, ótima para um ator”. E é precisamente essa imprevisibilidade, o risco permanente de falhar, de esquecer o texto, de ter um mau dia em palco, que distingue o teatro de qualquer outra forma de arte. "O teatro é ao vivo e é por isso que as pessoas gostam tanto. Está sempre em crise, mas nunca acaba”.
Para Gonçalo M. Tavares, o teatro é paradoxalmente a arte menos ameaçada pela Inteligência Artificial precisamente porque é a mais antiga, ao contrário da fotografia e do cinema que são mais recentes. "É uma assembleia, é uma comunidade de pessoas que naquele momento estão juntas. É esse lado de comunidade e, ao mesmo tempo, de perigo daquela pessoa que está ali ao vivo que pode ter um ataque cardíaco, pode esquecer-se do texto, isso é uma coisa que as pessoas ainda prezam muito”, disse Miguel Guilherme foi mais longe na sua leitura sensorial: "Sinto o perfume das pessoas que estão a ver. O riso. Há uma coisa táctil entre nós que não é substituível”.
Outra das questões centrais foi a relação entre representar e mentir. Para Miguel Guilherme “representar não é mentir, é a procura da verdade. Ao ter um bom texto, o que procuramos sempre encontrar é a verdade do texto, mas que é sempre diferente de pessoas para pessoas, de década para década, de país para país. É exatamente o contrário da mentira”.
O humor foi outro eixo da conversa, o que toca Miguel Guilherme, que, como ator, contracenou com os humoristas Herman José, Bruno Nogueira, Ricardo Araújo Pereira, fez anúncios com humor, mas admitiu que, na vida real, é "muito careta" e não sabe contar uma anedota”.
Em palco gosta de fazer rir e associa a comédia à tragédia com a mesma frase que Becket usava: "não há nada mais cómico do que a tragédia." A confissão de ter passado por depressão surgiu naturalmente nesse contexto. "Tive uma altura em que estive deprimido e também não ria. Sei o que é não rir, porque não rir é terrível, é uma espécie de falência do corpo humano e da mente”.
Gonçalo M. Tavares, por sua vez, defendeu o riso como agregador social e como dado fisiológico: "O espasmo que o riso provoca no corpo está provado que é muito saudável. Nós mexemos muitos músculos a rir." E recordou estudos que mostram existirem pessoas que passam um ou dois anos sem rir à gargalhada. "São pessoas muito doentes”.
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