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A 90 minutos da História

Angola está a 90 minutos de garantir o feito histórico da qualificação para o Mundial da Alemanha. E, tal como sucedeu em Portugal, aquando do Euro’2004, as varandas, janelas e telhados de todas as casas, empresas e instituições do país preparam-se para receber a bandeira angolana em sinal de auto-estima e orgulho nacional.

24 de setembro de 2005 às 00:00

Ao todo foram 13 milhões, tantas como a população angolana, as bandeiras encomendadas pelo Governo e que vão ser distribuídas no país na próxima semana. É a contagem decrescente para o decisivo jogo com o Ruanda, em Kigali, onde a equipa de Mantorras, Akwá & Cª vai procurar garantir a inédita qualificação para uma fase final do Campeonato do Mundo, depois de já ter confirmado a presença na próxima edição da Taça das Nações Africanas (CAN), que em 2006 decorre no Egipto.

Angola e Nigéria partem para a última jornada com os mesmos 18 pontos, mas os angolanos levam vantagem porque ganharam em casa e empataram na Nigéria. A 9 de Outubro, em Abuja, os nigerianos recebem o Zimbabué, à mesma hora que, em Kigali, Angola defronta o Ruanda. Se a Nigéria perder, Angola está apurada; se a Nigéria empatar, Angola precisa pelo menos de um empate; no caso de um triunfo nigeriano, os angolanos estão obrigados a vencer.

Em Angola, a mobilização é total. Da sociedade civil ao Governo, o entusiasmo em torno da selecção não tem paralelo na história do país. A euforia é tão grande, que um banco comercial, o Banco Comércio e Indústria, abriu uma conta para uma angariação de fundos destinada a premiar a equipa nacional. Cada cidadão pode depositar na conta o mínimo de 100 kwanzas, o equivalente a cerca de um euro. E acredita-se que cinco milhões de angolanos vão aderir à iniciativa...

Para o jogo no Ruanda, já está a ser preparada uma ponte área com seis voos charter para apoiantes angolanos – nas anteriores deslocações à Argélia, Gabão, Nigéria e Zimbabué apenas foi fretado um avião. São alguns dos sinais de entusiasmo, enquanto que o pulsar das cidades também não se dissocia da euforia em torno da equipa nacional. Nas ruas de Luanda são cada vez mais as pessoas com camisolas da selecção com os nomes dos jogadores nas costas. O ‘merchandising’ com as cores nacionais está a crescer e o preços de uma camisola, que custava oito euros, agora custa o dobro.

E num continente em que a rádio é o meio de comunicação por excelência, a Rádio 5, o canal desportivo da Rádio Nacional de Angola, vive momentos incomparáveis fruto da boa campanha da equipa nacional. Nos programas de interactividade, “a selecção é assunto de todos os dias, com a participação de agentes do futebol e ouvintes”, diz o director-geral António Rodrigues. O clima é de euforia e só faltam 90 minutos.

JOGADORES ALTAMENTE VALORIZÁVEIS

Rui Neno é empresário de futebol e não tem dúvidas que os jogadores angolanos vão ser altamente valorizados com uma eventual presença no Mundial da Alemanha.

“Estará dependente do desempenho na fase final”, argumentou o representante de André Makanga, acrescentando que os jogadores vão dispor de “um potencial de venda enorme”.

Sem quantificar a percentagem de valorização dos jogadores, Rui Neno sugere que pode acontecer um fenómeno semelhante ao que já aconteceu com outras anteriores selecções africanas, como o Senegal, Costa do Marfim, Camarões e Nigéria, que possuem jogadores em campeonatos tão mediáticos como o inglês e francês.

OITO INTERNACIONAIS EM PORTUGAL

São oito os internacionais angolanos que jogam nos campeonatos portugueses. Mantorras é o mais conhecido fruto da sua ligação ao Benfica, mas outros também passaram pela I Divisão, como Mendonça e Figueiredo, ambos do Varzim, João Ricardo, quando esteve ao serviço do Moreirense, ou até Freddy, que antes de assinar pela formação de Moreira de Cónegos passou pela União de Leiria. Os outros angolanos são Paulino (Lusitânia dos Açores), Joca (Varzim) e Kali, que depois de ter representado o Santa Clara, agora está no desemprego à semelhança do guarda-redes João Ricardo. De resto, aqui fica a equipa tipo dos angolanos: João (ex-Moreirense e actualmente sem clube); Loco (Benfica de Luanda), Lebo Lebo (Sagrada Esperança), Jamba (Asa) e Asha (Asa); Mendonça (Varzim), André Makanga (SC Koweit), Gilberto (Al Alhy, Egipto) e Figueiredo (Varzim); Akwá (Qatar SC) e Mantorras (Benfica).

"O POVO SOFREU MUITO E PRECISA DE ALEGRIAS"

Pedro Mantorras, ‘estrela’ da selecção, acredita que tudo mudaria no futebol angolano se o apuramento para o Mundial se concretizar.

Correio da Manhã – Angola nunca esteve tão perto de participar num Mundial...

Pedro Mantorras – É verdade, parece um sonho. As coisas estão bem encaminhadas, mas ainda falta dar o passo final e por isso não podemos facilitar. Precisamos de vencer o último jogo, no Ruanda. Eles são os últimos classificados do grupo, mas vamos enfrentar um ambiente complicado e será um jogo muito difícil, talvez o jogo mais importante na história do futebol angolano.

– Como está o país a viver esta caminhada da selecção angolana rumo ao Mundial?

– Com grande emoção. Tem sido uma verdadeira loucura, porque o povo angolano adora futebol, sofreu muito com a guerra e precisa de alegrias. Para o jogo no Ruanda já estão fretados pelos menos seis aviões para transportar os adeptos.

– É uma enorme surpresa Angola estar na luta pelo apuramento porque o grupo é muito forte...

– Esta selecção angolana está a espantar África e o Mundo. Ninguém pensava que fossemos capazes de competir ao mesmo nível com selecções de renome como a Nigéria e a Argélia, que já participaram em vários Mundiais. A maior parte dos jogadores de Angola são pouco conhecidos, mas somos uma selecção humilde e se Deus quiser vamos alcançar o nosso objectivo. Até aqui só víamos os Mundiais pela televisão mas desta vez quero mostrar a bandeira de Angola ao mundo.

– Qual o segredo do sucesso desta selecção?

– Temos um seleccionador [Luís Oliveira Gonçalves] muito experiente, que tem a 'planta da casa', porque conhece os jogadores há muito tempo. Treinou as selecções jovens e com ele fomos campeões africanos de sub-20. A nossa equipa é formada com base nesses jogadores que vieram das selecções mais jovens e depois há alguns mais experientes, como o Akwá e o Figueiredo. Graças a Deus que temos um grande treinador e uma direcção da federação que fazem das tripas coração para nos darem todas as condições.

– O que mudaria no futebol angolano se conseguirem o apuramento para o Mundial?

– Mudaria tudo e para melhor. As pessoas passariam a olhar para o futebol angolano de outra forma, a nível de infra-estruturas as coisas iriam melhorar muito e acredito que as condições de trabalho também. Hoje, mesmo alguns dos jogadores angolanos que estão na selecção estão esquecidos e jogam em clubes portugueses de divisões inferiores. Tenho a certeza que o Mundial iria mudar essa situação e que os clubes de topo da Europa passariam a estar atentos à qualidade dos jogadores angolanos.

DOIS 'PALANCAS' NA PÓVOA DE VARZIM

Mendonça e Figueiredo são dois internacionais angolanos que jogam no Varzim (Liga de Honra) e cuja ligação ao emblema poveiro termina no final da época. Há cinco épocas na Póvoa, o extremo Mendonça não esconde a sua paixão pelo clube, mas tem consciência que uma presença dos ‘Palancas Negras’ no Mundial seria muito vantajosa: “Se formos ao Mundial, o mercado dos jogadores angolanos vai explodir, tal como aconteceu com Camarões, Nigéria e Senegal”. Este veloz dianteiro de 22 anos sustenta que o Mundial “é uma montra privilegiada” e deixa entender que “há colegas que já foram para outros clubes, uma vez que os resultados abriram portas de outros países”.

Por sua vez, Figueiredo, médio de 32 anos que já passou por Belenenses e Santa Clara, encara o Mundial como uma possibilidade de valorização. “Estou contente por estar aqui e o Varzim promete fazer um excelente trabalho esta época. Penso que ainda é cedo para falar sobre a próxima temporada, mas de qualquer forma estou disponível para falar com toda a gente”, diz.

Acima de tudo, ambos reconhecem que “há uma grande atenção sobre a selecção de Angola”, como explica Mendonça, que já passou pelas selecções sub-17, sub-20 e olímpica. Uma ideia corroborada por Figueiredo, para quem a campanha da selecção trouxe “uma maior visibilidade”. “Tem havido muitos empresários a ver jogos e a contratar jogadores, principalmente para os países árabes”, constata este angolano que veio para Portugal aos 3 anos de idade, sugerindo: “A presença na Taça de África das Nações (CAN) já marca a carreira de qualquer jogador. Ir ao Mundial seria o máximo...”

DAS OBRAS PARA A BOLA

André Makanga, médio da selecção de Angola que actualmente joga no Koweit, veio para Portugal para fugir à guerra. Começou por trabalhar nas obras, enquanto jogava no Arrifanense. Ingressou no Salgueiros e depois no FC Porto, sendo emprestado a Guimarães, Alverca e Boavista. Passou pelo Qatar e hoje joga no Koweit.

AKWÁ FUNDAMENTAL

Akwá, que já passou pelo Benfica, é o mais internacional dos futebolistas angolanos. O dianteiro que actualmente joga no Qatar tem um longo percurso ao nível das selecções e tem sido fundamental nesta campanha. Devido aos problemas físicos, Mantorras apenas fez duas partidas e incompletas.

CAMPEÕES SUB-20

Esta selecção angolana não é fruto do acaso. Do núcleo desta equipa fazem parte jogadores que foram campeões africanos de sub-20 e chegaram aos oitavos de final do Mundial. São os casos de Mantorras (Benfica), Gilberto (Al Alhy), Mendonça (Varzim), Manuel (Asa), Lama (Petro de Luanda) e Meloi (Inter Luanda).

RIVALIDADE ANTIGA

A rivalidade entre Angola e Nigéria começou na qualificação para os Jogos de Sydney’2000. Na última jornada, com as equipas empatadas em pontos, Angola ganhou ao Uganda (1-0). A Nigéria jogou mais tarde, sabendo que tinha de vencer o Zimbabué por cinco golos. E conseguiu. Desta vez, os jogos são à mesma hora.

RECONSTRUÇÃO NACIONAL

Com o fim da guerra, há um grande empenho ao nível da reconstrução nacional e a campanha da selecção pode ajudar a levantar o astral. São muitos os projectos em marcha e com a recente linha de crédito concedida pela China, dentro de ano e meio vai ser possível percorrer o país por estrada e caminhos-de-ferro.

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