Visitámos a Quinta das Oliveiras, o único parque 100% naturista em Portugal. As roupas e os preconceitos ficaram à porta. Lá dentro há gente dos 10 aos 70 que vive sem medo do corpo
Uma intransponível cerca verde estende-se por vários metros na paisagem bucólica da Serra da Estrela. Uma placa escrita a letras garrafais no portão de metal anuncia aos incautos: ‘Cuidado com o cão!’. A campainha soa no ar, interrompendo um silêncio pesado. Ouve-se um ladrar furioso. Um longo minuto mais tarde, um restolhar de passos apressados aproxima-se do alto e opaco portão. A porta pesada abre-se de par em par e um homem envergando apenas uns calções de ganga gastos, de cabelos ralos e a pele demasiado queimada, recebe-nos com um sorriso intrigante. O sotaque nórdico não engana. Apesar de viver há oito anos em Portugal, Sietz Bijker, de 56 anos, domina rudemente a língua de Camões. "Sejam bem-vindos", afirma hesitante. "Entrem, entrem na Quinta das Oliveiras".
As primeiras impressões são confusas. À primeira vista, trata-se de um banal parque de campismo, situado a 450 metros de altitude. As poucas tendas estão espalhadas, entre videiras e oliveiras e declives acentuados. Em redor, só a dita cerca borra a pintura natural. "Não gosto dela, mas a cerca protege--nos de olhares indiscretos", confessa o holandês. Sietz recorda que no ano passado, depois de inaugurar o parque naturista, as pessoas das redondezas passavam tardes a fio no pinhal, a observar o dia-a-dia dos campistas. "Mas descobriram que isto não era o ‘Big Brother’ e como não havia cenas de sexo depressa se cansaram", remata.
Da zona da piscina sai uma mulher de meia idade, com um livro na mão e sem qualquer peça de roupa. Movimenta-se com à–vontade e faz um aceno amistoso. "É uma holandesa que chegou ontem com o marido", conta Sietz, que durante a conversa tira os calções sem qualquer constrangimento. "Aqui, as pessoas só se vestem quando têm frio. E ninguém olha para os corpos nus do vizinho do lado". Em 1995, Sietz e a mulher chegaram a Portugal com uma ideia de abrir um parque 100 por cento naturista. "Só existia um no Algarve, o da Quinta dos Carriços, mas é seminaturista", recorda. Os habitantes de Andorinha e Vila do Mato, as duas povoações mais próximas, nem queriam ouvir falar da ideia, pensando tratar-se de um local de ‘sexo e droga’. Na Câmara Municipal de Oliveira do Hospital o projecto ficou em ‘banho-maria’ até ao documentário da TVI, em 2000, sobre o paraíso naturista brasileiro, ‘A Colina do Sol’. "A partir daí tudo mudou", conta o holandês. Hoje, os locais já se habituaram à nova realidade e nem pestanejam quando o assunto é a Quinta das Oliveiras. Os turistas, na sua maioria do norte da Europa, até trazem muitos euros e simpatia na bagagem.
Embora não seja propriamente o jardim do paraíso, o cenário da Quinta é quase idílico. Debaixo do toldo de uma das tendas de campismo, um casal – tão vestidos como Adão e Eva – bebe o seu chá, um ritual de trinta anos de casamento. Maryke, de 61 anos, segura no bule e serve Han Veelders, de 67 anos. O sexagenário dobra o jornal e sorri-lhe com carinho enquanto pega na xícara. "Num parque naturista respeita-se a liberdade de cada um", afirma Maryke. É a segunda vez que estão em Portugal, mas nunca tinham passado férias na Quinta das Oliveiras. Na Holanda, são ‘habituées’ deste tipo de parques.
Existe afinal uma filosofia naturista? "Claro. Um corpo nu está mais próximo da natureza que o rodeia. Além disso, nós temos num grande à–vontade com o corpo. Só assim, se consegue estar bem com os outros", disserta a ex-professora de inglês na reforma. "Mas apesar de defendermos um estilo de vida saudável, não significa que todos façam ioga, sejam vegetarianos ou desportistas natos, como nos anos 60", frisa. Quase como que a corroborar as suas palavras, uns metros mais abaixo, Ron, de 45 anos e Kim, de 12 anos, também de origem holandesa, jogam pinguepongue de forma desastrosa. A bola teima em não ultrapassar a rede que divide ao meio a mesa verde mas, tanto o pai como a filha, riem-se da sua inépcia. Ron é camionista e conhece bem os caminhos de Portugal depois de mais de 20 viagens de trabalho pelo nosso asfalto. Não aprecia a confusão do Algarve e por isso trouxe a sua família até aos confins da serra. "Todos os Verões experimentamos parques naturistas. Já estivemos em França, na Suíça, Itália e Inglaterra", conta. "Só tenho pena que todos eles estejam longe de tudo e rodeados de grandes muros. São quase como prisões", desabafa. Mas Ron guarda a esperança de que dentro de uma década as mentalidades se alterem e se possa fazer naturismo sem tabus.
NUS E TÊXTEIS
Os holandeses continuam a ser os maiores clientes do parque, embora haja lá cada vez mais portugueses . "Continuamos a ser um povo retrógado que confunde naturismo com pornografia e exibicionismo". Quem o afirma é José Correia, de 46 anos, técnico administrativo de uma grande empresa em Viseu. Ele e a sua mulher, Maria, de 45 anos, estão sentados numas cadeiras de praia e observam o vale de perder de vista, que recentemente sofreu um incêndio de grandes proporções. "Os mirones que aparecem aí pensam que isto é um jardim zoológico de malucos com desvios sexuais", exclama. "Se contar a algum colega de trabalho que pratico naturismo, serei imediatamente alvo de chacota.". Para se escudar das piadas, o casal só revelou o seu ‘hobbie’ a um grupo restrito de amigos. Um deles é Miriam Ferreira, de 36 anos, que pertence à Federação Portuguesa de Naturismo. Há doze anos que a decoradora não veste um biquíni nem frequenta praias têxteis – onde se anda de fato-de-banho. "O naturismo era um clube reservado para homens, mas hoje já se vêem muitas mulheres nuas nas praias."
A ‘primeira vez’ que se despiu foi no parque naturista espanhol de El Portus. "Estava receosa em tirar a roupa porque não me imaginava a ir jantar a um restaurante nua", recorda. "Mas acabei por me despir quando cheguei e só voltei a vestir-me no regresso a casa" Miriam discorda que haja uma carga erótica no naturismo. "É mais fácil provocar um homem vestindo uma mini-saia". E enfatiza: "Nunca vi uma erecção em público num parque naturista. Já não posso dizer o mesmo em praias têxteis".
Sietz corrobora: "É mais ‘sexy’ uma rapariga muito bonita com um biquíni do que uma pessoa nua, onde não há espaço para a imaginação". O holandês passeia agora acompanhado pelos seus cães, Midas e Teza, e mostra com orgulho a sua casa pré-fabricada de madeira – que demorou nove dias a construir – e o sistema de energia solar, que alimenta quase toda a propriedade. "Sempre que posso tento pôr em prática os meus princípios ecológicos", declara o holandês, que não tem grandes saudades da terra-natal. "Estou viciado no sol português. Ninguém me tira daqui", brinca enquanto olha embevecido para as famílias que se vão aventurando novamente na água fresca da piscina, já sem receio de apanhar um escaldão.
O sino da Igreja de uma aldeia vizinha dá as cinco badaladas, mas Ron, Kim, Maryke e Han não ouvem porque estão entretidos a chapinhar na água. Sietz disserta melancolicamente: "No naturismo somos todos iguais. Não há doutores nem operários. Afinal, estamos todos como Deus nos pôs ao mundo."
COMO IR
O Parque de Campismo Naturista da Quinta das Oliveiras, situado em Eiras Velhas, no concelho de Oliveira do Hospital é encontrado a partir da Tábua e esta do IP3 que liga Coimbra a Viseu via IC12/ IC6/ N234-6. Ao chegar a Tábua, siga por Midões (onde não chega a entrar) e Vila do Mato (N337); passando por esta localidade, seguindo sempre em frente, encontrará do seu lado direito uma pedreira; a partir daí, até ao entroncamento, à direita para Andorinha, vão cerca de dois km. O Parque fica a meio caminho da subida para Andorinha.
NATURISMO VERSUS NUDISMO
Laurindo Correia, Presidente da Federação Portuguesa de Naturismo (FPN), estabelece uma fronteira entre o naturismo e o nudismo. "O primeiro é uma forma de nudismo social. Enquanto um nudista pode despir-se numa praia sozinho, o naturista interage socialmente, tem um espírito de solidariedade ecológica e preocupações de bem-estar", concretiza. É por isso que a FPN, que já tem quase mil associados, organiza várias actividades de lazer durante o ano como ‘body paintings’, ‘peddy papers’ ou churrascos. "O naturismo nasceu da confluência de várias correntes que nos anos 60 defendiam o vegetarianismo e o carácter gímnico. Hoje, todos esses valores foram unificados e não há ortodoxia de posições entre naturistas."
A NOSSA CAPA
Vestindo apenas calções de banho, fotógrafo e jornalista passaram um dia no único parque naturista em Portugal, onde várias famílias de portugueses e holandeses passam as suas férias sem qualquer peça de roupa. Tal como Deus as pôs no mundo. Indiferentes a preconceitos e piadas, os naturistas deixaram-se fotografar para a objectiva. É o caso, por exemplo, de Miriam Ferreira, decoradora de 36 anos, que surge na capa e que defende que o nudismo não tem nada de excitante.
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