A interdição de extracção de areias num dos troços mais requisitados do rio Douro está a gerar uma crise sem precedentes no sector e a agravar a fraca estrutura económica dos concelhos à volta de Castelo de Paiva. A paragem forçada já fez a primeira vítima, com o areeiro Licínio Leite a anunciar o despedimento colectivo de 48 funcionários.
Com receio que este venha a ser o fim dos 300 postos de trabalho directos no sector, uma comissão de trabalhadores marcou para hoje uma manifestação junto à ponte de Entre-os-Rios, onde vai tornar público um documento dirigido ao primeiro-ministro.
As sete empresas que extraiam inertes e que tinham licença para operar no troço entre a Ponte Hintze Ribeiro e a Barragem de Crestuma/ /Lever foram impedidas de trabalhar nesse local, por determinação do Governo, e em consequência da tragédia de Entre-os-Rios. Uma vez que existe a possibilidade de algum dos 36 corpos não resgatados se encontrarem naquele troço do Douro, o Governo suspendeu até Março de 2004 qualquer actividade extractora.
Só que, tal como o CM apurou, o Governo adiou a atribuição de licenças para outras zonas do rio, até que fosse concluído um estudo a cargo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil.
Já depois de ter o relatório na mão, em Agosto do ano passado, a secretaria de Estado das Obras Públicas recusou um pedido dos areeiros para extracções a montante da zona do acidente, ou seja, já perto da Barragem do Carrapatelo.
Segundo Fernando Jorge, da associação de areeiros, “em face desta resposta, as empresas vão ter de fechar”.
PROIBIÇÃO PODE SER ALARGADA
A interdição de extracção de areias junto à Ponte Hintze Ribeiro pode vir a ser prolongada para além de Março de 2004, tal como o Governo definiu. O CM apurou que a Associação de Familiares das Vítimas de Entre-os-Rios vai entrar com uma providência cautelar para que não haja remoção de inertes, na zona definida, até que se apure, em julgamento, se há ou não responsabilidades destas empresas na queda da ponte.
Segundo o presidente Horácio Moreira, “há sensibilidade para perceber o que os trabalhadores estão a passar”, daí que “a única objecção diz respeito à zona junto à ponte e não ao resto do rio”.
E foi exactamente para outro troço do Douro que as empresas pediram licenças ao Governo. Segundo Fernando Jorge, da associação de areeiros, “a solicitação foi feita e logo negada, mas estava dentro da lei, ia completamente de encontro às recomendações do LNEC e, para mais, era muito abaixo dos mínimos que antes se praticavam”.
“O Governo alegou a necessidade de execução de um plano específico para nos manter parados, enquanto a areia é importada de Espanha”, refere Fernando Jorge.
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