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António Sousa Homem

António Sousa Homem

A idade útil em Moledo

22 de fevereiro de 2026 às 00:30

O velho Doutor Homem, meu pai, acreditava que a velhice, aquela idade em que passamos do estado de cidadãos úteis a seres humanos tolerados, era um “termo de identidade e residência”, ou seja, não só proporcionava alguma tranqui­lidade como também indicava à morte o lugar onde teria de vir buscar-nos em chegando o dia. A estranha sabe­doria da velhice não é o resumo de uma experiência acumulada, mas uma espécie de desinteresse em relação a coisas dispensáveis e que nos incomodaram ou entusiasmaram trinta anos antes. Com a velhice passamos a fixar-nos em coisas terrenas com o mesmo enlevo que antes dedicávamos a assuntos vagamente espirituais, como se estivéssemos finalmente convencidos de que o mais importante já não é a existência em si mesma, mas apenas a existência do dia seguinte; tudo o resto passa como um sopro. E é nestas coisas que pensamos.

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