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António Sousa Homem

António Sousa Homem

Estamos por um fio, como sempre

19 de abril de 2015 às 00:30

A partir de certa idade passei a saber de quase tudo por ouvir dizer – à preguiça já habitual juntou-se uma certa impaciência diante das coisas que ocorrem "pelo mundo fora", designação atribuída a tudo o que acontece para lá de Moledo, ou seja, a sul de Vila Praia d’Âncora e a norte de Caminha. Limitado pela idade e pelo que as novas gerações chamam "a condição física", sou mais um observador informal do que um actor que cumpre um papel, mesmo secundário.Além de debilitados, os velhos – como eu – são também teimosos, obstinados e desiludidos. Provavelmente não são boa companhia, além de arrastarem consigo doenças intermináveis e cuja origem se perde no princípio dos tempos.

A Tia Benedita, a matriarca miguelista da família, soube sempre poupar-se a este género de decadência; com ela (e por intermediação do velho Doutor Homem, meu pai) aprendi coisas simples: não ter saudades de vidas pretéritas, resistir ao sentimentalismo e não me acomodar às prescrições dos médicos.

Às escondidas, tomando-me o pulso, a Dra. Teresa recomenda-me passeios pelas montanhas, nem que seja para visitar as magnólias no seu jardim de Venade, onde a Natureza é um exemplo da benigna doçura das coisas; mas ela sabe que, nesta família, resistimos sempre à obrigação de viver as nossas vidas de acordo com a vontade dos outros.

Por isso, o conformismo dos Homem (que seria aceitável numa família mais conservadora do que a fórmula da Aspirina) é uma ilusão. Dona Ester, minha mãe, dizia que isso se devia à nossa tendência para a rabugice, se bem que disfarçada por uma misantropia à flor da pele.

O velho Doutor Homem, meu pai, não concordava – atribuía a longevidade dos Homem a uma aptidão inata para sobreviver em circunstâncias adversas, fingindo-se de surdos, imunes às crises demográficas e aos avisos do destino num país onde se passa radicalmente do acne juvenil (e das suas ilusões revolucionárias) para o reumatismo e para a hipocondria.

Hoje, os telejornais ocupam metade do seu tempo com aulas de finanças públicas e especulação sobre falências de bancos, o que dá a ideia de como o mundo está a ser dirigido. "Estamos por um fio, é o que é", suspirava o meu avô. Há muito tempo que o oiço, por entre o ruído das notícias que ocorrem "pelo mundo fora", essa região ameaçadora que há-de ser esquecida quando chegar o Verão de Moledo.

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