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Dora, a Espectadora

Bruno Nogueira, o destemido

23 de outubro de 2026 às 00:30

Há que reconhecer coragem a quem a tem. E Bruno Nogueira tem-na às toneladas. Na ‘Grande Entrevista’ explicou que os argumentistas do ‘Ruído’ fazem apostas sobre os sketches que vão dar problema. Imagino o entusiasmo na sala: canetas no ar, nervos à flor da pele, o frio na espinha de quem sabe que está prestes a desafiar forças temíveis. E depois a escolha final, a mais arriscada de todas essas forças: a Igreja Católica. Uma instituição conhecida, como se sabe, pela violência das suas represálias. Basta lembrar o que aconteceu da última vez: umas associações católicas escreveram coisas zangadas nas redes sociais. Houve quem partilhasse. Houve até, segundo consta, quem desligasse a televisão. Bruno Nogueira sobreviveu, mas pagou o preço de ser entrevistado em horário nobre na estação pública. É por isso que me apetece saudar o outro lado da sua obra, o menos falado: a forma intrépida como tem gozado com os hábitos dos muçulmanos. O sketch do jantar do fim do Ramadão com febras de porco. A sátira às orações nos tapetes das mesquitas. A chamada para a oração nos minaretes com vozes femininas. Tudo com a mesma irreverência, a mesma acutilância, o mesmo “será que me devia estar a rir disto?”. Só que não me lembro de ne- nhum, confesso. Deve ser falha minha. Um humorista que diz que, hoje em dia, se pode falar de tudo, mais do que nunca, não havia de deixar metade do tudo de fora. Seria quase como um bombeiro que só apaga fogos em lareiras. O próprio Bruno diz que o que ainda o faz gostar de televisão é pensar que “isto vai provocar uma hecatombe qualquer”. Bonito. Só que há hecatombes e hecatombes. Numa, recebe-se um comunicado da Conferência Episcopal. Noutra, pergunte-se à redação do ‘Charlie Hebdo’. A coragem, como as apostas entre argumentistas, mede-se pelo que se tem a perder. Também a RTP merece aplauso. Há uma rara elegância numa estação que emite o sketch na RTP 1 e, dias depois, abre a RTP Notícias para que o autor explique, com calma e sem contraditório que incomode, porque é que quem se queixou está a gastar mal a energia. É serviço público completo: produz-se a polémica, depois produz-se a absolvição. Circuito fechado, sem desperdício. A casa ganha sempre, e paga o contribuinte. E, para conduzir a absolvição, ninguém menos do que o diretor de informação. Não um jornalista qualquer da redação, não um pivô de serviço, mas o próprio responsável editorial da estação, sentado em frente ao humorista da casa, a falar de um programa da casa. Vítor Gonçalves ainda lembrou Herman José e a ‘Última Ceia’, o que se agradece. Faltou só perguntar porque é que, trinta anos depois, a ousadia continua a apontar sempre para a mesma mesa. Bruno Nogueira tem razão num ponto: as pessoas que antes resmungavam na tasca agora resmungam nas redes. Os católicos portugueses fazem precisamente isso: resmungam. É essa, no fundo, a grande vantagem de os escolher como alvo. Faz-se a piada, colhe-se o aplauso pela ousadia, a estação pública trata do resto, e no dia seguinte vai-se ao café sem olhar por cima do ombro.

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