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Rui Pereira

Rui Pereira

Professor universitário

O futebol e a dialética

11 de julho de 2026 às 00:30

Napoleão Bonaparte comparou a cavalaria francesa, com soldados disciplinados, mas pouco afeitos à equitação, aos mamelucos, senhores da melhor arte equestre do seu tempo, mas indisciplinados: "Dois mamelucos sobrepunham-se, indiscutivelmente, a três franceses; cem mamelucos faziam frente a cem franceses; trezentos franceses venciam trezentos mamelucos e mil franceses derrotavam, inevitavelmente, mil e quinhentos mamelucos". Friedrich Engels, o inseparável companheiro de Karl Marx, analisou estas palavras e explicou o fenómeno como transformação dialética da quantidade em qualidade. Ora, tal análise serve como uma luva à nossa seleção de futebol (e à brasileira?), recheada de estrelas rutilantes, que saiu do mundial com uma vitória, dois empates e uma derrota (bem sei que noutros domínios o panorama é tão ou mais sombrio). Seremos nós “mamelucos”? E serão “franceses” os cabo-verdianos, com jogadores menos cotados, mas capazes de dedicar, em coro, aquele hino ao futebol no golo de despedida? O mais preocupante é que a nossa incapacidade de converter valor superlativo individual em força coletiva não parece estar confinada ao futebol.

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