É uma mulher precocemente envelhecida, meio desgrenhada mas de porte altivo, postada frente à sua barraca no bairro da Musgueira, em Lisboa. Atrás dela, encolhido, o filho adolescente, olhinhos de viciado em heroína, então a droga da moda nos bairros degradados e não só. À frente de um séquito de funcionários e autarcas locais está o presidente da CM da capital, Nuno Kruz Abecasis, que trata toda a gente por tu. "Vais ter uma casa! Vamos acabar com as barracas!" A mulher, deferente, levanta as mãos. "Ó senhor presidente! Quem me dera!" A meio da década de 80, Abecasis é, como sempre foi, uma personagem controversa, única, o primeiro autarca lisboeta a encarar de frente, a bem ou a mal, o problema da habitação de milhares de famílias a viver em barracas na periferia de Lisboa - de Chelas e "Cambodja" à Musgueira e ao Casal Ventoso. Lisboa, na década de 80, é uma cidade deprimente e suja. Contou o malogrado Joaquim António Ramos, então quadro superior da autarquia lisboeta (depois presidente da Câmara da Azambuja) que, logo após ser eleito, Abecasis convoca os engravatados altos quadros camarários para uma reunião. E diz: "Não me interessa quem é das obras, do lixo ou da cultura!. A prioridade é acabar com as barracas!" É um obsessivo. Marca o início de uma nova era em Lisboa. A capital muda. Manda abaixo o Monumental, deixa erguer mamarrachos. Ainda que polémico, Abecasis inicia um programa de realojamento do pessoal das barracas nos chamados bairros sociais. Contra esquerdas e direitas. Nesse dia da visita à Musgueira, numa tasca ali perto, à volta de um jarro de tinto carrascão, Abecasis promete aos presentes. "Ou eu acabo com as barracas ou as barracas acabam comigo!" Quase 40 anos depois, as barracas estão a voltar em força. Discute-se um tal Pacote Mais Habitação. Todos discutem e quem tem razão? Abecasis bem tentou, à sua maneira. Vamos ver é se as novas bar- racas vão chegar para todos os que precisam de tecto...
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