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Victor Bandarra

Por um 50 de Abril!

São todos doutores, lá isso são! Mas estão desempregados…

Victor Bandarra 2 de Maio de 2021 às 00:30
Uma vez por ano, o 25 de Abril toma conta da memória de muita gente entradota na idade. Mas hoje, domingo, a maioria já esqueceu o 25 de Abril deste 2021. Bombardeados com polémicas casuísticas, seguem agora, desatentos ou enfastiados, as sequelas das comemorações do Primeiro de Maio, Dia do Trabalhador. Pelo contrário, Jacinto é daqueles teimosos que se concentram nas datas e nas memórias. Bem se lembra do 25 de Abril de 1974. Acordou de madrugada, como tantos outros agricultores, e quis escutar na telefonia o programa "Rádio Rural". Descobriu que andava uma confusão por Lisboa. Praticamente analfabeto, filho de analfabetos, sabia desenhar o seu nome; uma vaidade que sempre cultivou junto dos que assinavam de cruz. Poucos meses depois, teve direito à primeira consulta médica na sede do seu concelho rural. Até o mandaram fazer uns exames; e foi assim que o doutor o aconselhou a deixar os "mata-ratos", o bagaço e o tintol. Jacinto, acima dos 80, abandonou há muito o tabaco, mas não resiste a aconchegar o estômago e a cabeça com uns bons copos. Pelo 25 de Abril, bem aquecido, insiste sempre em pôr à janela o velho aparelho de cassetes e lança aos vizinhos a voz de Zeca Afonso no "Grândola, Vila Morena". Filhos e netos sentem-se meio envergonhados, mas ai de quem contrarie o velho.

Jacinto e a família sentiram na pele e no espírito o que dizem os números vergonhosos e dramáticos do antes do 25A: mortalidade infantil de 58 por mil nascimentos e 25,7 % de analfabetos, cerca de um terço da população. O velho não é de alinhar em esquerdismos mas, em altos berros, nunca se esquece de agradecer ao 25 de Abril a dádiva de ter agora médico de borla no SNS, filhos com o liceu completo e netos licenciados.
Jacinto sempre teve "bom vinho", é reconhecido contador de estórias e inventor de grandes tiradas. Este ano, os vapores dos bagacinhos deram-lhe para pegar num novo mote. "O 25 de Abril já deu o que tinha a dar!" Espanto. Ninguém entende o alcance. Jacinto vira-se para os netos. "São todos doutores, lá isso são! Mas estão todos desempregados e andam por aí ó tio ó tio, ó pai ó pai, ó avô ó avô!" E toca de levantar o copo. "Isto está a precisar é de um 50 de Abril! Uma Revolução a dobrar e a doer!"
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