Em Portugal, “ir à terra” significa ter nascido a mais de 100 quilómetros de Lisboa ou do Porto. João, mulher e filhos adultos, foram passar o Natal “à terra”, numa aldeia acima do Douro. A mãe, Palmira, já passados os 80, resiste na sua terra, junto de uma filha. Sofre das maleitas da idade e da vida: diabetes, reumatismo, males de estômago. Vai-se aguentando, com tacto e sabedoria. Há um mês, caiu à cama, com tonturas, diarreia, febre e tosse. Preocupada, a filha conseguiu a custo levá-la às urgência no hospital da vila. Arreliada, ao fim de 10 horas de espera, Palmira explodiu. “Vamos mas é para casa! Vou falar à Isilda!” E assim fez. Isilda é uma velha “senhora de virtude”. Sabe tudo sobre chás, mezinhas, rezas. E lá veio a camomila e a erva-cidreira para a diarreia, a raiz de salsa para a diabetes, a salsaparrilha para a artrite, febre e constipação. Com reza a rematar. Palmira arrebitou. A senhora detesta que lhe falem em medicamentos. “Dão-me cabo do estômago!” João insiste. “Mãe! Tem que tomar os remédios!” E de repente, lembra-se do Professor Gomes-Pedro, que lhe tratou dos filhos crianças. Gomes-Pedro, pai mentor da Pediatria portuguesa, sempre entendeu não haver apenas uma receita de sucesso para todas as crianças com os mesmos sintomas - era a observação do comportamento que faria interpretar quem tinha o quê. Chamaram-lhe “o feiticeiro das crianças”, pouco fã de antibióticos e analgésicos a torto e a direito. Medicamentos para a febre? “Só acima dos 39 graus! Dê-lhe antes um banho morno!” Um dia, aflito, ligou ao Professor. “O meu filho está com uma diarreia fortíssima! Dou-lhe o quê?” Gomes-Pedro remata. “Para já, dê-lhe Coca-Cola!” João embatucou. “Não é grande bebida! Mas ajuda a travar a diarreia! Depois ligo-lhe!” O “feiticeiro” nunca deixou de acompanhar, mesmo à distância, os seus meninos. Já nem se usa!
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
Há quem se veja grego a defender a Constituição.
À ministra, fugiu-lhe a boca para a verdade: vamos esperar e rezar...
Em Portugal, usa-se e abusa-se de chavões retóricos.
Inverno árabe dará em primavera de apertar o cinto.
Luís Neves pode vir a ter em mãos vários casos de polícia.
Um exemplo de como as palavras percorrem sinuosos caminhos
O Correio da Manhã para quem quer MAIS
Sem
Limites
Sem
POP-UPS
Ofertas e
Descontos