A morte de Saddam Hussein por enforcamento faz-nos regressar à Idade Média. Já não basta a iniquidade da pena de morte: acrescenta-se-lhe a humilhação da forca, reforçada pelas filmagens que correm o mundo e que nos apresentam um homem de olhos apavorados, mas que manteve toda a sua dignidade, quando confrontado com um método de morte perfeitamente indigno. No filme da morte de Saddam é difícil identificar o criminoso, responsável por tantos crimes e assassinatos. Na curta-metragem da morte de Saddam Hussein identifica--se, sobretudo, uma vítima, numa situação mais próxima da noção da vingança do que do valor da Justiça. É difícil pensar num final mais “desculpabilizante” para um ditador como Saddam Hussein e mais incómodo para o Ocidente.
É irónico que os Estados Unidos tenham conduzido a intervenção no Iraque, levando na bagagem a ideia da construção democrática nos países árabes e muçulmanos, mas acabem por dar, com o enforcamento de Saddam, um sinal que está nos antípodas do que pretendem construir.
Não é justo, contudo, atribuir apenas aos Estados Unidos a responsabilidade pela morte do ex--ditador. Ao longo do regime de Saddam, os sunitas subjugaram os xiitas iraquianos, que representam qualquer coisa como sessenta por cento da população do Iraque. Por outro lado, o Irão, governado pelos xiitas, manteve uma guerra sanguinária com o regime de Saddam. É razoável pensar que a morte de Saddam contenta os xiitas em geral e o Irão, em particular. Para não falar, por exemplo, dos curdos, duramente perseguidos pelo regime do ex-presidente do Iraque. São apenas alguns exemplos que ajudam a compreender melhor as razões que levaram Saddam a este final. Os Estados Unidos só por si não executariam Saddam se não tivessem algumas razões para acreditar que não são os únicos a desejar esta morte, para o antigo presidente. No íntimo, muitos desejavam a morte de Saddam, mas nem todos podem confessar o desejo: preferem utilizar o enforcamento de Saddam Hussein como mais um pretexto contra a América. Não parece provável que a morte de Saddam facilite o diálogo com o Irão. A presença americana na região, enquanto durar, constituirá sempre uma ameaça latente para Teerão.
Quanto aos sunitas, embora minoritários, representam ainda uma faixa significativa da população iraquiana e reconhecem agora, em Saddam Hussein, um novo mártir, em nome do qual continuarão a opor-se à presença de tropas estrangeiras em solo iraquiano.
O enforcamento de Saddam não levará a paz ao Iraque, mas envia a mensagem de que os valores civilizacionais são mais uma cartilha do que uma convicção: eis um erro indesculpável, quando o mundo se confronta com a ameaça sempre latente do terrorismo.
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