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Francisco Moita Flores

Francisco Moita Flores

Professor universitário

A violência e a idade

02 de outubro de 2006 às 17:00

Os últimos dados fornecidos pela Associação de Apoio à Vítima indicam que no quadro da violência doméstica surgem cada vez mais idosos vítimas de agressão por familiares próximos. A emergência destes novos protagonistas – até há bem pouco tempo a violência familiar tinha como alvos as mulheres e as crianças – abre a porta para uma reflexão diferente sobre as mutações que nas últimas três décadas se observaram no que respeita ao paradigma familiar.

Somos herdeiros de uma tradição liberal e romântica que elegeu a família como o centro simbólico da perenidade dos afectos, da educação, do culto de valores éticos e morais, socialmente tidos como bons. O verdadeiro viveiro reprodutor das ideias de ordem, autoridade, socialização por via de transmissão através das relações de solidariedade verticais.

A família exalta o amor com juramento de fidelidade, responsabilidade na educação dos filhos, da assistência mútua, e inscrevia, ainda que subjectivamente, o respeito pela ancestralidade, onde a ideação da figura do avô/avó era a chave para a regulação de uma ordem psicoafectiva que tornava a família numa instituição que se prolongava para além do círculo estrito no núcleo pai/mãe/filhos e garantia a reserva e protecção moral da ordem social.

A figura do ‘bonus pater familia’, à qual se prende toda a produção do direito moderno, integra este conjunto de axiomas. A família como produtora de sensatez, de amor, de solidariedade, de razoabilidade.

Porém, as alterações profundas, com várias raízes de ordem social, moral, económica, política, a que não é estranha a emergência da mulher na vida pública, o poder de controlo sobre a natalidade, as revoluções invisíveis no mundo da informatização, a secularização dos comportamentos, a reinterpretação da sexualidade, a que se associam os mitos do prazer e do consumo, têm destruído inexoravelmente as cadeias de solidariedade da tradicional família romântica, emergindo novas relações, novos entendimentos da vida, da responsabilidade, da autoridade que determinam não só o papel regulador da instituição como a funcionalizam, tornando-se excedente o papel do avô, substituído pela televisão, internet, na função de reprodutor de memórias e histórias.

O idoso torna-se, pois, um excedente. Não é produtivo, não é consumidor no sentido que o modelo social e económico espera. Não tem um valor de coesão familiar, pois que esta se alterou conforme as determinações funcionais. Enfim, é uma inutilidade.

Não admira, pois, a violência contra os idosos. Admira, sim, que sendo este problema perceptível há várias décadas continuemos a fazer de conta que nada mudou e se permita, na velhice, a destruição violenta daquilo que dá sentido à nossa existência – a memória. Uma sociedade assim precisa de reforma. E de um poder humilde que encontre a solução justa, solidária, afectiva para os idosos. É um desafio que nos interpela no território mais sublime da cidadania. E não sei se, na pressa dos dias, não estaremos a ser cruelmente injustos com aqueles que ainda são jovens e decidem. É que um dia seremos nós os idosos.

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