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Fernanda Palma

Fernanda Palma

Professora Catedrática de Direito Penal

A 'Visita da velha Senhora'

31 de março de 2013 às 01:00

Com a sua intriga tão macabra quanto humana, esta peça versa sobre a Justiça e a sua destruição, retratando o ressentimento e a vingança da sua personagem principal – uma velha milionária.

A "velha senhora" fora expulsa de uma pequena cidade de província na sua juventude, traída e abandonada pelo seu amante, do qual esperava uma filha (e que, comprando falsas testemunhas, levou o tribunal a negar a paternidade). Muitos anos mais tarde, regressou, rica, poderosa e implacável, para exigir a reparação, com "juros", da injustiça que a vitimara.

Há uma certa analogia, na perspetiva da cultura protestante, entre o enredo da peça e o castigo que está a ser infligido aos países do sul da Europa por causa do seu alegado despesismo. Também os habitantes da terra natal da "velha senhora" não conseguiram gerir com sucesso os seus negócios e caíram na ruína, acomodados aos seus hábitos e valores.

Todavia, não me parece que seja essa a essência desta obra. A "velha senhora" foi ferida na sua mais profunda dignidade e não consegue reaver o que perdeu sem subverter a própria Justiça que a condenou. O seu preço, em troca do financiamento da cidade, foi a morte do antigo amante (que evoca a libra de carne exigida pelo Mercador de Veneza ao devedor).

A "velha senhora" opôs à Justiça moralista que a desprezou a justiça dos seus sentimentos, pondo à prova os valores humanistas dos seus concidadãos, que tiveram de decidir entre o crime e a miséria. Apesar da resistência inicial, todos eles foram comprados, um a um, e a morte do antigo amante aconteceu, aceite pelo próprio, aliás, como um castigo inexorável.

A Justiça não conseguiu manter, com coerência, os seus critérios e deixou-se corromper, substituindo-os pela pura vingança para salvar a cidade da bancarrota. Ora, a modificação dos valores essenciais de uma sociedade conforme as circunstâncias e a falta de convicções fortes assentes na dignidade humana abrem espaço a uma justiça taliónica primitiva.

Porém, esta lógica da vingança conduz a um círculo vicioso e opõe-se à verdadeira realização de Justiça. Na peça, um velho professor comunica, atormentado, ao antigo namorado da "velha senhora" que o irão matar e que ele também tomará parte no crime. Mas acrescenta, lucidamente, que outra "velha senhora" lhes virá pedir contas por esse crime.

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