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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

Ai, Jesus!

Jesus já pediu desculpa pelo sucedido. Se houver sensatez, por aqui ficará este bizarro caso de polícia.

Francisco Moita Flores 29 de Setembro de 2013 às 01:00

O futebol mobiliza multidões apaixonadas. Gente que projeta na sua equipa muitas das suas expectativas de realização pessoal, que faz de cada vitória da sua equipa a sua própria vitória, que se inebria, que se emociona, que se deixa arrebatar por emoções descontroladas e celebra e se lamenta como se desse jogo dependesse o seu sustento, a sua vida. Durante um grande jogo percebe-se, como em nenhum outro palco, que a emoção não tem limites.

São frequentes os casos de adeptos vítimas de enfarte. Durante 90 minutos, mobilizam-se energias e entusiasmos, aplausos e gritos, iras e ódios, alegrias e críticas sem o cuidado e a educação com que se vive os quotidianos. Insultar árbitros é uma normalidade. Uma entrada violenta e intencional sobre um adversário, que noutra circunstância seria um crime de ofensas corporais, é punida com um cartão amarelo e com um livre. Não contra o agressor, mas contra a equipa.

As paixões levam as multidões ao delírio, a desculpar no estádio aquilo que era indesculpável numa rua. É um vulcão de tensões e conflitos que crescem conforme se desenrola o psicodrama onde golos, ataques, contra-ataques e defesas espetaculares aumentam a dimensão do confronto, diminuem a racionalidade, conferindo ao espetáculo uma dimensão fascinante. Só quem assistiu a grandes jogos de futebol é capaz de entender que esses momentos intensamente vividos pouco ou nada têm a ver com a rotina dos dias.

Até a multidão é espetáculo, as claques, os hinos, as bandeiras. Um espetáculo que inscreve uma dimensão violenta, musculada. Todas as nossas valências, psicológicas e físicas, se comprometem com o espetáculo. E porque é assim, não consigo perceber o alarido em torno do Jorge Jesus e do seu gesto irrefletido.

Nem o purismo da polícia que, melhor do que nós, vive e sente esta vibração tumultuosa e anormal das nossas emoções. Nem o Jorge Jesus cometeu qualquer crime tal como o seu gesto de repulsa contra o polícia apenas se explica através do que dissemos: a emoção sem limite. Ele é um dos atores principais desta imensidão arrebatada de exaltações que conferem magia, fascínio e polémica ao futebol. Já pediu desculpa pelo sucedido. Fez bem. Se houver sensatez, por aqui ficará este bizarro caso de polícia.

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