Os leitores perceberão: sou editor de Julian Barnes e é a primeira vez que escrevo sobre ele nesta coluna, mas isso tem uma razão: na passada terça-feira, o autor de ‘O Papagaio de Flaubert’ e ‘O Sentido do Fim’ cumpriu 80 anos e publicou um novo livro, ‘Partida’. O título justifica-se: é um romance de despedida, o último, depois de lhe ter sido diagnosticado um tipo particular de cancro, neoplasia mieloproliferativa: “O meu cancro e eu caminharemos juntos, de braços dados, até o dia da minha morte.” Barnes é um dos maiores escritores ingleses do nosso tempo, a par de Ian McEwan ou Martin Amis. Neste romance que tanto me tocou, misturando ficção e realidade - como na generalidade da sua obra tão elegante -, Barnes nunca cede ao lamento. Enfrenta o fim como se estivesse preparado para ler os seus obituários, recordando o amor, a amizade (com Amis), as picardias, a literatura e o confronto com a beleza que perdura nas coisas. Perdoe-se-me eu escrever sobre ele e o seu livro - mas fiquei rendido a esta comoção.
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