A mãe da vencedora, Adélia, também competiu, obtendo o terceiro lugar. Depois, confessou ter ficado feliz com o brilharete da filha e por ser "a terceira mais feia". Já Babalu, casada com Francisco Dias, de 76 anos, e mãe de três filhos, suspirou: "Estou conformada com a cara que Nosso Senhor me deu. Graças a Deus inventaram esse concurso, assim apareço na TV." Cruzemos o Atlântico. Durante seis semanas (uma eternidade no relógio da net, apesar de um nanossegundo na vida real), a escocesa Susan Boyle saltou da obscuridade para os holofotes. Quase tão feia como Babalu, é certo que Susan tinha um ninho de rouxinóis na garganta. Resultado: toda a gente adorou trocar o desdém pelo êxtase quando ela deu corda às amígdalas. Ficámos todos encantados com o contraste entre a sua vida amorfa e a sua audácia para habitar um programa hiper-competitivo, no qual apenas um sobrevive (apesar da treta de que o importante é participar). Sobretudo depois da ‘rendição’ meticulosamente espontânea de Simon Cowell, o fulano que embolsa fortunas para ser planetariamente sádico.
Só que, na máquina de picar carne, Susan já tinha ido demasiado longe. Começou a entrar em parafuso e foi hospitalizada. O Patinho Feio contorcia-se sob a plumagem do cisne plastificado. E quem ganhou foi um grupo de street dance, adolescentes joviais e com o nome mais politicamente correcto possível: Diversity (Diversidade). ‘Derrotada’, Susan ainda será assunto durante alguns dias, agora pela sua ‘desgraça’. Na letra da canção que quase a consagrou, há "tigres que vêm com a noite e convertem os sonhos em ignomínia". Na vida real, as feras também vêm à luz do dia – ou da ribalta. Lembram-se do Zé Maria? Pois, eu também não. Não, não sejamos moralistas: toda a obra substantiva requer esforço, mérito e disciplina. Mas não requer invulnerabilidade. Nessa cloaca dos concursos – supostamente tão edificantes e democráticos – há gente muito, mais muito mais feia que Babalu e Susan Boyle. Ao pé deles, ambas são Helenas de Tróia. Porque eles não passam de necrófilos. São abutres.
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Por Carlos Rodrigues
Enquanto o COI impedia homens biológicos de baterem em mulheres, por cá a gente entreteve-se com uma pseudo-traição na ‘Secret Story’ e a bolha mediática acha mal José Luís Carneiro pressionar pela libertação de presos políticos.
Ninguém pedia que a Europa marchasse com Israel e os EUA para o Irão.
É caso para temer que seja mais do mesmo.
Os filhos levam tempo até perceber que os pais também são humanos.
Somos dos países mais seguros. Porquê? Porque somos dos mais subdesenvolvidos.