Aníbal Rosa, presidente ASPPM
Ser polícia em Portugal nunca foi apenas um emprego. É aceitar, desde o primeiro dia, viver com o risco, com a incerteza e com a responsabilidade de proteger os outros, mesmo quando isso significa colocar a própria vida em segundo plano.
É trabalhar noites sem fim, passar Natais, Páscoas e feriados longe da família, enfrentar situações de perigo que mudam diariamente e carregar um desgaste físico e emocional que poucos conhecem verdadeiramente.
Esse desgaste não fica apenas na farda — entra em casa, afeta famílias, relações e vidas pessoais. Não é por acaso que se verifica um elevado número de divórcios entre profissionais desta área, resultado direto de horários imprevisíveis, ausência constante e pressão acumulada ao longo dos anos.
Em troca, o Estado reconheceu — ou prometeu reconhecer — esse sacrifício, através de condições especiais como a pré-aposentação, um sistema de saúde mais adequado e um conjunto de direitos ajustados à exigência da profissão.
Mas hoje, a realidade é outra.
Os polícias continuam a cumprir, continuam a estar na linha da frente, mas veem as suas condições a degradar-se. São obrigados a trabalhar mais anos, veem o acesso à aposentação dificultado, o sistema de saúde perder qualidade e, agora, até as regras das suas pensões serem alteradas a meio do caminho.
Fala-se em cortes que podem chegar aos 30% nas pensões — uma medida manifestamente injusta para quem passou uma vida inteira a defender os outros de forma altruísta e abnegada. Não se pode exigir tudo durante décadas, e, no final, retirar dignidade a quem sempre cumpriu.
E tudo isto num país que mudou — com novos desafios, mais pressão e maior exigência sobre quem garante a segurança de todos.
Um polícia não é apenas mais um funcionário público. É uma carreira com características únicas, reconhecidas até pelo próprio Estado através da atribuição de um subsídio de risco. Mas até aqui reina a injustiça: o subsídio de risco não é igual para todos. Profissionais que enfrentam perigos semelhantes recebem compensações diferentes — uma desigualdade difícil de compreender e ainda mais difícil de aceitar.
Esta disparidade só aumenta a revolta dentro das forças de segurança, criando um sentimento de desvalorização entre quem arrisca a vida todos os dias de forma igual.
Ainda assim, os policias portugueses continuam privados de direitos básicos, como não poder fazer greve, limitações na participação política, e muitos nem sequer têm representação sindical efetiva.
São homens e mulheres que juraram servir, mas que hoje sentem que estão a ser esquecidos.
É tempo de justiça.
É tempo de reconhecimento verdadeiro.
É tempo de igualdade dentro das próprias forças de segurança.
Porque não pode haver segurança sem respeito por quem a garante.
Aníbal Rosa
Associação Sócio Profissional da Polícia Marítima (ASPPM)
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