page view

Novos áudios revelam que a Red Eléctrica sabia que o sistema apresentava falhas três meses antes do apagão

Em janeiro, os especialistas da central de controlo da Red Elétrica reconheceram a importância de analisar as falhas.

08 de abril de 2026 às 11:48

Um segundo conjunto de áudios relativos ao apagão que ocorreu em Portugal e Espanha em abril de 2025 foi divulgado, 20 dias antes de cumprir um ano. As conversações entre as principais empresas elétricas privadas e a Red Eléctrica, operadora do sistema, mostram que já se sabia desde janeiro, três meses antes do incidente, que havia um grande risco do sistema sofrer uma crise.

Nas chamadas telefónicas, os técnicos da operadora apontam o excesso fotovoltaico e a falta de energia nuclear e de gás como a causa das oscilações de tensão que derrubaram o sistema, avança o jornal espanhol El Mundo.

A 31 de janeiro daquele ano, a rede elétrica espanhola sofreu uma sobrecarga tão severa que acionou os alarmes das empresas privadas de eletricidade. Durante uma chamada para o centro de controlo da Red Eléctrica, onde fica a 'caixa negra' de todo o sistema elétrico, a Endesa informou que algumas unidades na central nuclear de Ascó quase desligaram e "se as unidades desligarem, ficaremos a zero".

No centro de controlo, assumiram que o que ocorreu nesse dia não era o comum: "hoje foi muito exagerado". E já tinham o diagnóstico: "a solar não é como a eólica, a eólica tem inércia, mas com a solar, alguém pode chegar e apertar um botão, e se não aumentar a escala um pouco, causará problemas".

Naquele dia, os técnicos da operadora descreveram o episódio como uma "oscilação muito, muito grande" e decidiram conduzir uma análise para examinar o que aconteceu. "Haverá reuniões, porque hoje foi muito sério. Um relatório ou algo do tipo será preparado", afirmaram.

As gravações em áudio mais recentes foram recolhidas pelos membros da comissão do Senado que investigam o caso de 28 de abril de 2025.

A presidente da Red Eléctrica, Beatriz Corredor, negou repetidamente em dois depoimentos qualquer falha da operadora e defendeu que acionar mais unidades de geração de energia térmica não teria evitado o acidente. As gravações mais recentes contradizem essa informação.

"É preciso mais geração térmica em larga escala que é o que regula a situação", apontaram os especialistas no centro de controle da operadora estatal na manhã de 28 de abril. "São elas que estabilizam as coisas, mas como a energia solar domina tudo, o resto não consegue entrar. O sol é ótimo para o verão e para a praia, mas para isto, não importa o que digam... entre oscilações repentinas, chegará o momento em que...", continuaram.

Embora Corredor e toda a direção da Red Eléctrica tenham atribuído o incidente à má resposta das centrais elétricas programadas para operar naquele dia, os técnicos na mesma manhã apontaram diretamente para a escassez de unidades acopladas que, por razões de preço, estavam a ser substituídas por sistemas fotovoltaicos.

Isto coloca o foco na gestão da Red Eléctrica. A matriz energética é decidida através de um leilão em que a mais barata é selecionada, no entanto o operador do sistema deve ajustar essa matriz para garantir o fornecimento. Para aquela segunda-feira, dia 28 de abril, a empresa semipública programou o menor número de centrais termoelétricas do ano.

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

o que achou desta notícia?

concordam consigo

Logo CM

Newsletter - Exclusivos

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

Mais Lidas

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8