Joana Amaral Dias e Paulo Sargento fazem a análise da obra 'Sem Filtro' sobre os anos da presidência em Alvalade.
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Talvez um dos episódios mais extraordinários narrados por Bruno de Carvalho no livro ‘ Sem filtro - As histórias dos bastidores da minha presidência’ seja o do capítulo 7, em que o ex-presidente leonino se propõe a mostrar que "José Maria Ricciardi não teve qualquer influência na reestruturação que alcançámos com a banca".
"Na altura, ele era presidente do Banco Espírito Santo Investimento (BESI) e esteve em algumas reuniões, a meu pedido, mas manifestou sempre grande desconhecimento dos assuntos que estávamos a debater. Portanto, a ideia de ter ajudado o Sporting nesses assuntos não é real, embora nunca tenha mostrado problema algum em ficar com esse rótulo."
Ainda sobre Ricciardi (candidato à presidência do clube após o afastamento de Carvalho), épico é o trecho que aqui se transcreve: "Estávamos na sala da direção, em Alvalade, com a porta aberta, a falar normalmente. De repente, põe-se de joelhos à minha frente e agarra-me nas pernas.
‘Perdoe-me, perdoe-me. Estava tão enganado ao longo destes vinte anos. Cometemos tantos erros. Obrigada por tudo o que está a fazer pelo Sporting’, dizia ele.
Fiquei atónito com aquela reação: ‘Ó homem, está tudo perdoado, mas, por favor, levante-se do chão. Passa aqui alguém, veem-no de joelhos e ainda ficam a pensar outra coisa. Largue-me as pernas, por favor.’
Ele lá se levantou e parou com aquela figura. Quem é que imagina um homem como Ricciardi, de joelhos, a pedir desculpa? Mas é uma realidade. Venha ele desmentir ou não", escreve Bruno de Carvalho no livro editado pela Contraponto e escrito em coautoria com o jornalista Luís Aguilar, que se estreou em 2010 na escrita com ‘Futebol são onze contra onze e no final ganha... o sexo’, seguindo-se a biografia de Futre ‘El Portugués’ (parte I, 2011, e parte II, 2012), ‘Mourinho Rockstar’ (2014) ou ‘FIFA Nostra’ (2016), entre outros livros.
Quanto ao autor que é a pena e o motivo de ‘Sem filtro’, Bruno de Carvalho foi - a 15 de novembro do ano passado, seis meses após o ataque à Academia de Alcochete -, formalmente envolvido no caso, quando o DIAP de Lisboa deduziu acusação contra 44 arguidos, incluindo ele próprio.
Só seis dos arguidos estão em liberdade. O sobrinho neto do almirante Pinheiro de Azevedo e Nuno Mendes ‘Mustafá’ - o homem que chegou à liderança da claque depois de ter fundado o núcleo do Pica Pau, no Monte da Caparica (considerado um bairro ‘sensível’ pela polícia) - e o núcleo do Linhó, quando cumpria pena, estão obrigados a apresentações diárias às autoridades.
"Pronto, estás contente?"
"Depois, o William Carvalho deu voz a uma teoria mirabolante: ‘Você julga que nós não sabemos que pediu à Juve Leo para nos bater?’, referiu ele. Foi aí que, à frente de todo o plantel, puxei do telemóvel, coloquei em voz alta e liguei ao líder da Juve Leo, Nuno Vieira (mais conhecido por Mustafá) (...)
‘Alguma vez te pedi para ameaçares os jogadores?’, perguntei.
‘O quê? Não estou a perceber nada’, disse ele. (...)
Desliguei a chamada e dirigi-me ao William: ‘Pronto, estás contente? Agora todos os teus colegas sabem o mentiroso que és."
O tom de autocomiseração - de um lado os ‘maus’ e do outro aquele que tudo fez pelo clube -, o ajuste de contas, a vontade de justificar os assuntos que caíram na praça pública e até os mimos que dispensou à "interesseira" com quem casou em 2017 nos Jerónimos, justificaram que se pedisse a dois especialistas da área da psicologia para lerem o livro editado pela Contraponto - ainda em pré-venda chegou à segunda edição.
O neuropsicólogo Paulo Sargento e a psicóloga Joana Amaral Dias aceitaram o desafio - a análise deles nas páginas seguintes..
A OPINIÃO DE JOANA AMARAL DIAS, PSICÓLOGA, ESCRITORA, POLÍTICA E COMENTADORA DA CMTV
Não julgues um livro pela capa, costuma dizer-se. Só que um livro também se avalia pela lombada, pelo título, pela oportunidade, tal como os olhos também comem ou tal como se diz (e bem) que não há segunda oportunidade para as primeiras impressões.
E o que logo se destaca neste volume assinado por Bruno de Carvalho é, de facto, o nome: ‘Sem Filtro’. Será que tantos meses volvidos e num documento escrito (que, ao contrário da oralidade, possibilita reflexão ou distensão), o ex-presidente desse grande clube que é o Sporting ainda não entendeu que um dos seus maiores problemas foi, precisamente, não ter filtro, dizer e fazer demais, ser impulsivo, precipitado, funcionar em curto-circuito?! Mau. É um péssimo sinal. Mas enfim, avancemos.
Outra dificuldade da personalidade e actuação de BdC sempre foi a grandiosidade. Esta dimensão também
se mantém com exuberância. Por exemplo, é-nos dito que desde os seis anos (quando foi pela primeira vez ao estádio) ambiciona ser presidente da instituição. Ora bem, é evidente que não é normativo que um miúdo dessa idade tenha tal desígnio.
É quase bizarro, omnipotente, agigantado. Numa avaliação psicológica, esse aspecto logo seria sinalizado. Ainda por cima, Bruno de Carvalho repete esta história diversas vezes ao longo do livro, sem distanciamento crítico.
Esse aspecto também se manifesta em diferentes ocasiões: o antigo dirigente de Alvalade não se cansa de insistir que é licenciado e que tem mais este e aquele curso ou, por exemplo, enfatiza que é sobrinho-neto de Pinheiro de Azevedo (dá grande destaque a este parentesco), não entendendo que não é de títulos nem de apelidos que se constrói o mérito e a virtude.
Por fim, continua quer a desvalorizar a invasão de Alcochete, quer a relativizar a sua reacção. BdC admite que falou demais mas empurra a responsabilidade para cima dos jornalistas: "Proferi uma declaração que seria retirada de contexto por alguma comunicação social: ‘Foi chato ver os familiares dos jogadores ligarem preocupados.’ Começaram então a dizer que eu tinha considerado ‘chato’ o ataque à Academia, de forma a imputarem-me insensibilidade."
Sucede que não foi apenas isso que o ex-presidente leonino declarou. Nomeadamente, afirmou: "Foi chato mas amanhã é um novo dia. Está tudo a correr dentro da normalidade. O crime faz parte do dia a dia." Esta linha, como referido, mantém-se e até se reforça no ‘Sem Filtro’.
De resto, a culpa é dos órgãos de comunicação social e dos outros à sua volta. Mas nunca dele. BdC acusa e responsabiliza tudo e todos, desde a sua ex-mulher à sua equipa, não revela pinga de auto-crítica, aconteceu o que aconteceu e ele não passa de uma vítima, de um injustiçado, um bode expiatório, julga-se um herói que lutou contra os poderes fáticos e tácticos, afirmando até com todas as letras que é o D. Sebastião de Alvalade e que, um dia, regressará.
Se isso se verificar, está visto, revisto e escrito que será sem mudar um milímetro das suas características pessoais, as mesmas que quase conseguiram arruinar uma Casa Centenária e de enorme valor social como é o Sporting. Atenção.
*antiga ortografía
A OPINIÃO DE PAULO SARGENTO, NEUROPSICÓLOGO CLÍNICO E FORENSE, PROFESSOR UNIVERSITÁRIO E COMENTADOR DA CMTV
Bruno de Carvalho é um cidadão dotado de características comportamentais públicas que lhe conferem, em meu entender, um estatuto especial e que me atreveria a designar por "personagem de elevada desejabilidade mediática".
Assim, distanciando-me do cidadão, que não conheço pessoalmente, analiso a referida personagem, para quem os media informais já criaram um nome de código – BdC -, especulando sobre algumas das suas características exclusivamente públicas.
BdC utilizou, desde o início do(s) seu(s) mandato(s), um discurso querelante e beligerante, uma atitude obstinada e desconcertante, frequentemente incoerente, contraditória e, mesmo, instável, "fazendo-se de maluco e/ou de parvo", como muitas vezes assumiu, e recorreu a um estilo de liderança autocrática, marcado por excessiva auto-inebriação e por evidente omnipotência narcísica. A partir de certo momento, tais traços acentuaram-se de tal modo que personagem e contexto se confundem: BdC e SCP são a mesma coisa!
De formas diversas, desde a afirmação da heroicidade até à vitimação, BdC representa tudo o que de mais benigno o SCP é e pode ser e os seus oponentes tudo o que de mais maligno o SCP foi, é ou será. No livro que recentemente publicou, BdC renasce das cinzas, qual Fénix, após um período de menor exposição pública e mostra por que razão é "personagem de elevada desejabilidade mediática".
Escrita na primeira pessoa, a obra é estruturada em 12 capítulos (tal como Hércules realizou 12 trabalhos, antes da sua apoteose) ao longo de 207 páginas, servindo a Guarda, de cor verde e letra branca, de exposição dos Grandes Feitos do seu narrador e primeiro autor – épico!
BdC narra, efetivamente, ‘Sem Filtro’, de forma assumida! Refinando o seu estilo habitual, mas colocando muita lama numa enorme ventoinha, BdC conta-nos algumas histórias do seu período como presidente utilizando um ritmo intenso, ao estilo ‘fuite des idées’, muitas vezes em tom eufórico e heroico, outras vingativo e auto-comiserado, sarcástico e, mesmo, vexatório.
Desde a partilha de flatulências alheias até à putativa exposição vexatória de célebre banqueiro que perante si terá ajoelhado e rogado o seu perdão, passando pelo "afeto" interesseiro da ex-mulher, tudo sugere uma ideia central: o personagem BdC agiu sempre por amor e em defesa do SCP; e isso tudo justifica!
BdC sempre assumiu uma atitude pública ‘Sem Filtro’! Essa atitude pública ter-lhe-á proporcionado o estatuto de figura pública "com especial desejabilidade mediática", mas também lhe terá causado grandes dissabores e, segundo o próprio, criado "boatos" (consumo de álcool e estupefacientes).
Falar é uma coisa; escrever é outra! Se a palavra dita pode ser entendida como irrefletida, a escrita é indelével e deve ser ponderada. BdC, igual a si próprio, manteve o espírito ‘Sem Filtro’ mesmo quando poderia "filtrar". Afinal, o que é a personalidade senão o que de mais duradouro e perene existe na nossa vida mental?
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