Apuramento dos resultados demorou cerca de 30 horas.
A Ação Democrática Independente (ADI), que reinvindicou vitória nas legislativas são-tomenses, considerou "muito grave" a demora de quase 30 horas da Comissão Eleitoral Nacional em anunciar os resultados e admitiu "manifestações pacíficas" para mostrar "a força do povo".
"O ADI acha isso muito, muito grave. O senhor presidente da comissão eleitoral tem na sua posse os dados apurados a nível distrital que dá a maioria ao ADI", comentou, na segunda-feira à noite, o secretário-geral do partido, Américo Ramos, na sede, na capital são-tomense.
O responsável denunciou "essas manobras que tentam impedir que o ADI vença essas eleições de forma legal, correta e transparente".
"Não sei por que carga de água o senhor presidente da Comissão Eleitoral Nacional [CEN] nega categoricamente ler esses resultados, e, enquanto nega, reúne-se com um administrador da empresa Rosema no seu gabinete, que é um dos apoiantes do MLSTP, para tratar o quê, eu não sei", comentou, aludindo ao deputado do partido no poder e administrador da cervejeira Manuel Martins, conhecido como Manuel 'Sãozinha'.
A cervejeira Rosema é a maior indústria de São Tomé e Príncipe e foi alvo de uma longa disputa judicial sobre a sua propriedade entre o empresário angolano Melo Xavier e os irmãos são-tomenses António e Domingos Monteiro, tendo o processo sido reaberto em 2019 pela justiça, que entregou a fábrica ao empresário angolano, retirando-a aos são-tomenses, que a tinham adquirido por 5,5 milhões de euros.
Questionado pela Lusa sobre esta acusação do ADI, José Carlos Barreiros negou ter-se encontrado com o deputado e administrador da empresa nas instalações da CEN.
"Nem sei onde é que ele anda. Somos amigos", afirmou. No entanto, testemunhas no local garantiram à Lusa que Manuel 'Sãozinha' esteve no gabinete do presidente da CEN na tarde de segunda-feira.
O líder da ADI, Patrice Trovoada, reivindicou na segunda-feira de manhã a vitória com maioria absoluta, com 29 dos 55 deputados à Assembleia Nacional.
"Os resultados deveriam ter sido apresentados já há muito tempo. Nunca nesse país houve um espaço tão grande. Tudo isso são manobras dilatórias no sentido de criar problemas nessa sociedade, num país pequeno, de irmãos, um país que precisa de outras coisas, um país que visa desenvolver, um país que precisa lutar contra a fome, contra a pobreza e [tem] um grupo de gente com esse tipo de atitude", referiu.
"Nós vamos utilizar a força do povo para fazer vincular a nossa posição e fazer vencer esse tipo de gente. Nós não estamos mais a conseguir controlar a fúria da população, porque a população quer revoltar-se", comentou Américo Ramos.
Questionado se esta posição não poderá incentivar confrontos, como aconteceu no rescaldo das eleições em 2018, o dirigente partidário afirmou que não: "O ADI sempre fez manifestações pacíficas, mas tem que se mostrar a essa gente que o povo é que manda".
"Nós estamos perante um grupo de gente mafiosa, bandida, que não quer o bem para esse país, são sempre as mesmas pessoas", referiu.
No exterior da sede, pouco mais de uma dezena de apoiantes da ADI já se concentravam no local, muito perto da sede da CEN, e gritavam para mostrar o seu descontentamento pela demora no anúncio de resultados.
Cerca de 30 minutos depois, o presidente da CEN, o juiz José Carlos Barreiros anunciou o número de votos que cada concorrente teve nas legislativas, mas sem indicar o número de mandatos correspondente a cada partido, o que remeteu para o Tribunal Constitucional. Segundo os dados da CEN, a ADI foi o partido mais votado, com mais de 36.500 votos, enquanto o Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe/Partido Social Democrata (MLSTP/PSD) obteve mais 25.500 mil votos.
No exterior, mais manifestantes juntaram-se ao protesto contra o responsável da CEN e incendiaram pneus no meio da estrada, a poucos metros das instalações do organismo, cercadas por militares e polícias.
"Digam o número de mandatos", pedia um manifestante, enquanto outro reclamava: "não sabemos como está formada a Assembleia Nacional hoje, se há maioria ou não".
Exaltados, manifestantes gritavam "rua, rua" e insultos, enquanto um apoiante do ADI pedia "transparência no processo". "Não podem roubar os votos do povo", dizia outro.
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