Os Homem raramente estiveram do lado bom das coisas; tinham doenças vulgares, escondiam segredos de família e queimavam a correspondência antes de entrarem no Purgatório, que era o reino onde – por puro optimismo – se pensava que iriam repousar durante a Vida Eterna. Além disso, fomos vencidos em muitas guerras, o que contribuiu para que ganhássemos juízo bastante no último século, tratando da horta, economizando nas meias-solas e frequentando as termas. A tudo isto, claro, havia uma excepção, representada pelos anos distantes em que a tia Benedita se esforçava por manter a vetusta dignidade dos Homem de antanho, aguerrida e teimosa. Nessas ocasiões, por pirraça, calhava-lhe relembrar os primos que combateram nas companhias de Dragões do Minho, ao lado do general MacDonnell sob a bandeira do Senhor D. Miguel, ou os antepassados que deixaram o nome e algum sangue pelos valados da Pátria, mas quase sempre de forma desprendida e sem solenidade. Depois das guerras, depois do setembrismo e da Maria da Fonte, depois do constitucionalismo e da República, mesmo durante o salazarismo (tivemos um antepassado que, contra o aviso da família, foi subsecretário de Estado do dr. Salazar), ou depois dele, portámo-nos bem: mantivemos os velhos retratos no seu lugar (mesmo os mais comprometedores), porque alguém tinha a noção da lealdade e da honra –, mas seguimos em frente sem ressentimentos, aconselhados pela intuição e pelo desejo de sobrevivência, mais do que pela moral, que não serve para os cozinhados de Dona Elaine, a corajosa governanta deste eremitério de Moledo. A minha sobrinha Maria Luísa acha que as minhas memórias estão a ser assaltadas por tempestades reaccionárias. Respondo-lhe, enquanto poiso o ‘Portugal Contemporâneo’, do Dr. Oliveira Martins, que o mundo não me pertence e que os abismos de hoje são piores do que os de ontem. Tenho a sensação de que devo abster-me de falar de velharias que n
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