A Tia Benedita, a matriarca miguelista da família, comentava com uma pontualidade desconcertante que Janeiro era o mês mais longo do ano – e que nunca mais terminava. Isso não se devia ao facto de o seu aniversário ser durante este mês, mas porque, findas “as festas” no dia de Reis, havia ainda uma longa trajetória até ao entrudo, à Quarta-Feira de cinzas (por causa da abertura do lausperene da Sé de Braga), à Quaresma e à Anunciação do Senhor, que antecediam a sua preparação para a missa por São Martinho de Dume, a 20 de Março, e para o que viria a ser a sua Semana Santa, uma espécie de apoteose de beatitude e representação social. Explica-se em duas penadas: por um lado, era necessário ir a Braga; por outro lado, que fosse em grande. A primeira das condições era simples, porque não havia Semana Santa como a de Braga, tirando a de Jerusalém (a senhora não reconhecia a de Sevilha, porque alguns homens da família iam lá em festejos noutras datas); a segunda era marota, e a Tia Benedita fingia desconhecê-la: todos os anos, o Tio Alberto, bibliófilo e gastrónomo de São Pedro de Arcos, a transportava até casa dos nossos primos, perto da Sé, no lugar da frente do seu Alfa Romeo Villa d’Este vermelho – ele de fato e gravata, como actor de um filme italiano; ela com o seu grande casaco de Inverno, da mesma cor do véu escuro. O Tio Alberto fazia questão de contrariar o ascetismo da matriarca; a família sorria com a imagem. Ao fim dos dois dias de Braga e dos sermões da época dados por pregadores severos, a Tia Benedita regressava a Ponte de Lima – de onde só saía de novo para visitar a Tia Henriqueta em Vila Praia de Âncora – com a satisfação do dever cumprido.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
A minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família, é uma das aristocratas do lugar.
"Às vezes pede para mudar de canal, mas é o mesmo em todos”
Estávamos, todos, a precisar daquela beleza num país zangado consigo mesmo.
Não gostava do Generalíssimo como não gostava do dr. Salazar, o que várias vezes se apresentou ser um problema para a família
A olhar o nevoeiro entre as agulhas dos pinhais.
A mesma Pátria chorosa volta a não ler o escritor tão amado que durante dois dias foi o mais folheado dos seres humanos
O Correio da Manhã para quem quer MAIS
Sem
Limites
Sem
POP-UPS
Ofertas e
Descontos