Por motivos que não vêm ao caso, várias gerações da nossa família voltarão a reunir--se este ano, em Agosto, no velho casarão de Ponte de Lima. Durante décadas, o dia 8 de Agosto ou o domingo que lhe fosse mais próximo foram a data escolhida para um interminável almoço de cerimónia em que um bando de primos, tios, afilhados, pais e avós se juntavam para lembrar que, mais coisa menos coisa, éramos todos "do mesmo sangue". Não éramos, e foi isso que nos salvou do degredo, da solidão e do ensimesmamento, sem falar daquela reclusão triste que vitima as famílias que se julgam o centro do mundo.
Acontece que os Homem nunca se levaram muito a sério e, mesmo em vida da Tia Benedita, a matriarca que até mais tarde reuniu os símbolos, as fotografias e os documentos da família, a maior parte dos presentes apresentava-se com regularidade mas com uma morigerada convicção. Há familiares que não revejo há anos, e aparece sempre alguém que nunca vi. Naqueles tempos, a Tia Benedita sentava-se à cabeceira de uma das mesas e vigiava o serviço, intervinha numa ou noutra conversa, recordava uma falecida, evocava o Senhor Dom Miguel. À nossa maneira, éramos uma família de exilados num país que nos rodeava por todos os lados, e onde nem podíamos ser ouvidos, porque tínhamos escolhido o lado dos derrotados (e não fingíramos que tinha sido por engano), nem queríamos ser tidos em conta, porque fomos criados numa discrição dolente, tratando da vida, esperando que as revoluções não nos corressem à baioneta. E todos os anos (com bandos de crianças que desfolhavam os lírios nos canteiros e jogavam à bola debaixo das figueiras) tratámos de almoçar, essa saudável ocupação nacional.
Este ano, 8 de Agosto calha a um sábado. A minha sobrinha Maria Luísa e os primos trataram de escolher o cardápio a esta distância (eu apenas exigi que se reabilitasse a receita de arroz de pato da Tia Henriqueta, a nossa melancólica e risonha cozinheira de Vila Praia de Âncora), com a concordância de Dona Elaine, que se viu transformada em marechal das comemorações. Maria Luísa, a esquerdista da família, ficou naturalmente encarregue de levar o retrato de Dom Miguel para limpeza no restaurador de Braga. O príncipe presidirá, portanto. Ela faz isto às escondidas do dr. Louçã. lD
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