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Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Câmara do Porto vai olhar "com atenção" novos licenciamentos para evitar casos Selminho

De acordo com Rui Moreira, "no caso da Arcada" não há "possibilidade de reclamar a sua propriedade".

08 de janeiro de 2019 às 15:21

O presidente da Câmara do Porto afirmou esta terça-feira que os serviços vão analisar "pedidos de licenciamento" com "atenção" a duplicações de registos como o da Selminho, mas "andar aleatoriamente à procura" é "como a caça aos gambozinos".

"No caso de surgir um novo pedido de licenciamento, olharemos para isso com atenção. Andar aleatoriamente à procura é um pouco como a caça aos gambozinos. E não é só nesta zona [da Arrábida]. Várias vezes verificámos desconformidades", afirmou Rui Moreira na reunião pública da Câmara, a primeira após o tribunal ter decidido ser municipal parte do terreno da Selminho, imobiliária do presidente da autarquia e da sua família.

O presidente da Câmara respondia ao pedido, feito pelo PS e a CDU, para que a autarquia avalie a se existem outros terrenos municipais "apropriados" por privados, e esclareceu que, relativamente à obra da empresa Arcada na Arrábida, em investigação pelo Ministério Público (MP) e Inspeção-Geral de Finanças (IGF), juristas concluíram não existir "possibilidade de reclamar a sua propriedade".

A questão foi levantada pelo socialista Manuel Pizarro: "Não podemos tolerar, de forma nenhuma, a apropriação por privados de bens públicos. Esta [decisão judicial] exige de nós uma atenção particular e tem um valor moral que nos deve levar a revisitar a atitude do município", observou.

A vereadora da CDU, Ilda Figueiredo, manifestou "receio de que outros processos possam surgir ou [terrenos] estejam a ser usados fraudulentamente", apelando à autarquia para "averiguar e, se for caso disso, reivindicar a sua posse".

"Receamos que haja vários casos deste tipo. Seria importante analisar, tendo em conta prazos legais para contestar o usucapião [registo de propriedade pela posse]", observou.

Quanto aos terrenos da Arrábida onde decorre a obra da empresa Arcada, Moreira recordou que, "havendo dúvidas sobre a propriedade, o executivo deliberou [em 2001] que os terrenos eram privados".

De acordo com o presidente da autarquia, Rui Moreira, "no caso da Arcada" não há "possibilidade de reclamar a sua propriedade".

"Seguir, neste caso, o mesmo processo da Selminho, não é possível. Se o advogado entende não haver condições [para reivindicar os terrenos], devemos ter algum cuidado em litigar sem condições", disse.

Moreira notou também que, "neste momento", estão "duas entidades a fiscalizar esta matéria", referindo o MP e a IGF.

Relativamente a esta entidade, o autarca disse que a inspeção "tem estado instalada nos serviços do Urbanismo" e "está a fazer uma auditoria, que deverá estar pronta muito proximamente".

Moreira lembrou ainda uma ação popular movida em dezembro e relativamente à qual a Câmara "ainda não foi notificada".

"Também aqui é uma boa altura para ver se há mais alguma coisa onde nos possamos agarrar. O que temos feito é não praticar mais nenhum ato [quanto à obra da Arcada]", garantiu.

Rui Moreira decidiu ainda enviar ao local uma inspeção, depois de a vereadora do PS Odete Patrício ter alertado estar em construção "o novo edifício", referente a uma segunda fase da obra e a uma licença que a autarquia ainda não emitiu.

Num relatório concluído em 16 de novembro, juristas contratados pela Câmara do Porto dizem que a autarquia abdicou em 2001 dos terrenos onde decorre a empreitada da Arcada.

"Embora conhecendo que lhe pertencia parte da área de terreno", a Câmara "renunciou à discussão desse direito no quadro de uma operação de permuta", concluíram.

Os juristas observam ainda que os terrenos "foram sucessivamente transmitidos" entre empresas, o que "prejudica a possibilidade de ser deduzida qualquer pretensão eficaz" contra a atual proprietária.

Quanto a outros terrenos, Moreira observou que "tem feito enorme trabalho no cadastro no património municipal".

"O mapeamento está disponível a qualquer cidadão e também ele funciona como o melhor policiamento disto. E não é só nesta zona. Várias vezes verificámos desconformidades", descreveu.

O Tribunal Judicial da Comarca do Porto concluiu na sexta-feira que são da Câmara do Porto 1.661 dos 2.260 metros quadrados da escarpa da Arrábida comprados em 2001 pela Selminho a um casal que o registou por usucapião.

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