As histórias de quem perdeu a vida em 2023 vítima de violência doméstica
Muitas das vítimas sofreram em silêncio durante anos e algumas chegaram a apresentar queixa às autoridades. Entre mulheres, homens e crianças morreram 18 pessoas em 2023.
Joana, Lara e Maria. Estes são apenas três dos 18 nomes de quem perdeu a vida em 2023 vítima de violência doméstica. Mulheres, homens e crianças que sucumbiram às mãos de agressores, muitos deles anteriormente identificados pelas autoridades.
Em 2020 morreram 27 pessoas vítimas de violência doméstica, número que diminuiu no ano de 2021 para 18 mas voltou a aumentar em 2022 para 32. No Radar da violência doméstica do Correio da Manhã damos a conhecer os números e as histórias trágicas, mas também os testemunhos de quem sobreviveu.
Recorde os casos
8 de fevereiro
Soraia Alexandra, de 31 anos, morreu após ser espancada e lentamente asfixiada com um golpe mata-leão pelo companheiro, de 29, na casa de ambos na Amexoeira, Lisboa.
O crime terá ocorrido cerca das 3h00 da manhã, quando os dois filhos – um do casal – dormiam.
A vítima, que já tinha apresentado queixa de violência doméstica contra o agressor, em 2011, acabou por morrer no hospital de Santa Maria.
22 de fevereiro
Carla Dias, de Gondomar, foi esfaqueada até à morte pelo ex-companheiro, no local onde trabalhava como empregada de limpeza.
O agressor usava pulseira eletrónica na altura do crime após ter sido condenado por violência doméstica contra a vítima. Segundo apurou o CM, o homem nunca aceitou a separação.
Após o crime, o homicida fugiu do local mas acabou por se entregar na esquadra da PSP de Gaia.
14 de março
Conceição Ferreira, de 62 anos, foi perseguida e ameaçada durante vários meses antes de ser morta a tiro pelo ex-companheiro, em Pedrouços, na Maia. O homem nunca aceitou o fim da relação que durou cerca de uma década.
José Artur, de 65 anos, fez alguns disparos à porta da casa da filha que telefonou à mãe a pedir que não saísse de casa porque o homem estava armado.
Conceição decidiu sair em auxílio da filha e foi morta a tiro pelo ex-companheiro na rua.
A mulher tinha feito queixa de violência doméstica mas o caso foi arquivado no ano 2022.
14 de março
Lara tinha apenas 7 anos. Foi degolada pelo avô que deixou dois bilhetes na sala a explicar a morte da menina.
A menor vivia com a mãe, Joana, e o avô, conhecido por Borges, em Vialonga, Vila Franca de Xira. O crime ocorreu quando Joana estava fora de casa. O agressor ligou várias vezes à filha a perguntar quando regressaria a casa e só atacou a menina quando a mãe disse já estar a chegar.
Segundo apurou o CM, o homem vivia um quadro de depressão.
21 de maio
Délia Gouveia, de 53 anos, foi morta a tiro pelo companheiro, de 49, no Sítio da Meia Légua, Ribeira Brava, na Madeira.
O homem, alcoolizado, atingiu a vítima no pescoço com um tiro de uma pistola calibre 6.35 mm.
Foi o agressor que contactou a PSP a dar conta do homicídio. O casal vivia junto há cerca de 10 anos.
24 de maio
Dulce Oliveira foi assassinada pelo marido, com quem vivia há 22 anos, em São Martinho, Águeda.
A relação tinha momentos de conflitualidade motivados, principalmente, pelo vício do jogo do homicida.
Um dia após o 45.º aniversário de Dulce, o casal discutiu. A mulher disse a José Augusto que ia sair de casa e este não gostou. A vítima foi esfaqueada até à morte e hora e meia depois, o agressor ligou para a GNR a confessar o crime e anunciou que se ia suicidar.
Quando os militares chegaram à residência do casal, que deixa um filho de 21 anos, já não havia nada a fazer. Vítima e homicida estavam cadáveres.
9 de junho
Maria, de 73 anos, foi morta à facada pela filha, de 48. Há muito que a mulher se queixava que a filha, que sofria de esquizofrenia e não tomava a medicação, a insultava e agredia.
O cadáver da vítima foi encontrado pela PSP no chão da sala, no apartamento onde ambas viviam. Junto ao corpo estava uma faca de cozinha com vestígios de sangue.
A homicida foi encontrada um dia após o crime por uma patrulha da GNR da Trafaria no Bairro Branco, Monte da Caparica.
10 de junho
Lucinda Carvalho, de 61 anos, foi assassinada à machadada pelo companheiro, de 78, na residência onde ambos viviam em S. Romão, Seia.
O crime não surpreendeu os vizinhos tendo em conta que o casal era conhecido pelas discussões constantes.
O agressor suicidou-se por enforcamento. Quando os bombeiros chegaram, encontraram a vítima e o homicida já cadáveres.
17 de junho
Isaltina Gomes, de 92 anos, é outro caso de uma mãe assassinada às mãos de uma filha. A vítima foi morta à pedrada por Luísa Madeira, de 67 anos, que após o crime pôs termo à vida.
Luísa era cuidadora da mãe a tempo inteiro, na Rua São Teotónio, no centro de Coimbra. Segundo apurou o CM, problemas psiquiátricos da filha estão apontados como estando na origem do homicídio seguido de suicídio.
20 de junho
Angelina Oliveira, de 29 anos, foi morta pelo companheiro, de 34, em Quarteira, concelho de Loulé. O homicida usou uma faca e uma tesoura para atacar a mulher e dormiu com o cadáver durante uma noite.
O crime ocorreu no interior de uma loja que o casal, de nacionalidade brasileira, usava como habitação.
O homem entregou-se à GNR e alegou que tinha ingerido bebidas alcoólicas em excesso e que o crime teria ocorrido durante uma discussão.
23 de junho
Margarida Silva, de 62 anos, estava a dormir quando foi atacada pelo marido na casa onde viviam nas Caldas das Taipas, em Guimarães. Foi esfaqueada várias vezes e tinha a faca espetada no pescoço quando foi encontrada.
O casal partilhava a mesma casa mas há cerca de seis anos que não fazia vida a dois.
O homem terá assassinado Margarida por se sentir rejeitado.
Também Cláudia Silva, grávida de sete meses, foi morta pelo amante quando apanhava orégãos num terreno perto de Borba.
A vítima, de 35 anos, foi assassinada à facada. O empresário agrícola, de 44 anos, terá cometido o crime por não ter a certeza de que seria o pai da criança ainda por nascer.
O homicida preocupou-se em simular o suicídio da amante. Antes de fugir do local do crime, deixou uma faca na mão da vítima que tinha ferimentos no pescoço, barriga e braços.
15 de junho
Joana Nascimento, de 25 anos, morreu uma semana depois de ser atacada pelo ex-namorado, em Lagoa.
A jovem, educadora de infância, estava a sair de casa quando foi surpreendida pelo agressor.
Joana sofreu um golpe no pescoço mas conseguiu fugir de carro até se começar a sentir mal. Pediu ajuda, foi assistida pelo INEM e transportada ao hospital de Portimão onde recebeu tratamento.
Apesar dos ferimentos, Joana regressou a casa com medicação. Nos dias seguintes começou a sentir-se mal e regressou ao hospital onde lhe foi detetada uma infeção. Foi transportada de helicóptero para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde foi operada mas acabou por não resistir à infeção generalizada e morreu.
O agressor entregou-se à GNR na companhia de uma advogada.
23 de agosto
Carla Fonseca, de 45 anos, foi assassinada pelo ex-namorado, de 60, três dias depois de fazer queixa de violência doméstica.
A professora separou-se do companheiro em outubro de 2022, após 15 anos de casamento, mas nunca mais teve paz. Era perseguida e ameaçada.
O homem surpreendeu Carla durante a madrugada, quando esta regressava a casa, e disparou três tiros. A vítima morreu no local e o homicida, depois de ligar ao irmão a confessar o crime, suicidou-se.
O casal deixa um filho de 11 anos.
14 de setembro
Lara Pereira, de 19 anos, foi assassinada pela irmã, de 16, em Peniche. A menor matou a irmã com três facadas e ocultou o cadáver sob uma das camas onde as duas dormiam.
O buraco onde escondeu o corpo, junto à casa onde viviam, foi escavado durante três dias. Ninguém suspeitou. A menor transportou o corpo da irmã para a sepultura improvisada com a ajuda de um carrinho de mão.
A mãe das menores passava meses sem as ver e o pai sofre de problemas de saúde e alcoolismo.
25 de setembro
Maria Alice Furriela, de 87 anos, morreu estrangulada pelo marido, de 89, no Montijo. O casal tinha constantes zangas e Jeremias acreditava que a mulher o traía.
O idoso confessou o crime às autoridades depois de ter impedido a entrada dos bombeiros na casa onde estava a vítima. A situação só ficou resolvida com a chegada da GNR.
6 de novembro
Piedade Patrocínio, de 88 anos, foi morta com um tiro na cabeça pelo marido, Vital Marques, de 87.
O homem, antigo guarda dos jardins do Palácio de Queluz, deixou uma carta a justificar o porquê de ter matado a mulher. A mulher estava doente, quase cega e com Alzheimer, e o idoso era o seu cuidador há vários anos. O homem suicidou-se após o crime.
Os corpos foram encontrados no apartamento do casal, em Massamá, Sintra.
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