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Habitantes de Pombal acreditam que invernos rigorosos e tempestades são "o novo normal"

População recorda invernos rigorosos do passado, mas diz que as alterações climáticas vão aumentar a frequência e intensidade destes fenómenos.

13 de fevereiro de 2026 às 17:59

No centro da cidade de Pombal, o café Nicola serve de ponto de encontro para se seguir com atenção, através das notícias que chegam pela televisão, o impacto que o mau tempo continua a ter em toda a região e que os populares veem como "o novo normal",

"Tenho 67 anos e nunca vi nada assim, não me lembro de um inverno com tanta chuva e vento. Penso que os invernos vão começar a ser assim, com chuva, vento, tempestades e cheias: é o novo normal", afirmou Carlos Duarte.

Natural de Pombal, recorda que, quando era garoto, passou por invernos muito rigorosos, "eram quatro meses de frio e chuva", mas é preciso recuar até ao ano de 1977 para encontrar um inverno mais severo, "com muita chuva, muito vento e muitos danos e prejuízos".

"Mesmo assim, apesar de ter sido mau, não tem comparação com o que se passou este ano em todo o nosso concelho, em toda esta região. O que tivemos este ano foi deveras assustador", lamentou.

Apesar de "só ter ficado um dia e pouco sem luz", ainda há algumas povoações do concelho que continuam sem fornecimento de energia elétrica.

"Nem sei como fazem, não pensei que isto, nos dias de hoje, voltasse a ser possível".

Com os olhos a desviarem-se constantemente para a televisão, para acompanhar a possibilidade de cheia na Baixa de Coimbra, Carlos Duarte foi partilhando que o que se vive tem dedo humano.

"Isto é tudo por causa das alterações climáticas, Deus não tem nada a ver com isto. O mundo não está podre, o ser humano é que o apodrece", afirmou.

Os estragos são grandes em casas, infraestruturas de vários tipos e "uma verdadeira calamidade para a agricultura".

"Não vai haver arroz no Baixo Mondego, vai faltar tanta coisa. Nesta altura, já tínhamos as primeiras batatas, ervilhas e favas. E agora não há nada", indicou.

Mas "o mal de uns é a sorte de outros", que aproveitam o momento para vender, por exemplo, geradores, que "há uns tempos quase não tinham saída".

"Até os minimercados aproveitam, fartam-se de vender garrafões de água para as pessoas se lavarem. Há muitas casas que continuam sem água", referiu.

Duas mesas ao lado, José Canelas, de 63 anos, também garante não ter memória de um inverno assim.

"Nem aqui, onde vivo há três anos, nem em Viseu, onde vivi algum tempo, nem em Alvaiázere, onde vivi quase a minha vida toda. Que me lembre, nem em lado nenhum no país todo", destacou.

Cerca de 50 anos depois de ter visto televisão pela primeira vez, devia ter uns dez anos quando os pais juntaram dinheiro para comprar o primeiro aparelho, não se imaginava a ficar sem energia elétrica para poder ligar a sua companhia de todos os dias.

"Foram três dias sem luz, até ter um gerador e felizmente só houve uns pequenos estragos no telhado da casa onde moro. Pareceu-me voltar ao antigamente, em que nos aquecíamos com a lareira e éramos iluminados por uma candeia", informou.

Os últimos dias foram diferentes, mas garante não ter medo de nada, porque "o homem tem uma grande capacidade de se adaptar aos novos desafios".

"Na minha vida já passei por muito, estive 30 dias em coma, sofri alguns AVC [Acidente Vascular Cerebral] e fiquei com algumas sequelas, mas tive de me adaptar: deixei de ser mecânico e passei a ser empresário no ramo do azeite. Também nos vamos ter de adaptar a esta nova realidade do mau tempo", sustentou.

Assíduo no café Nicola, é aqui que todos os dias tenta a sua sorte ao comprar algumas raspadinhas.

"Às vezes lá calha, outras vezes não... Mas, sorte mesmo, era que isto acalmasse", concluiu.

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