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Gonçalo M. Tavares

Escritor

A boa malandrice da boa – Mário Zambujal

14 de março de 2026 às 00:30

E de repente, mais uma morte de um escritor que nos marcou a todos, Mário Zambujal. Escrevi em tempos o prefácio para uma nova edição - são tantas! – de a “Crónica dos Bons malandros”. Um livro que se tornou um ícone do palavrear dos bairros, que meteu a ‘calonice’ em modo de literatura de aventuras urbanas. E sim, Zambujal era isso: tudo está/estava/ continua a estar na malandrice daquele sorriso ao cantinho da boca, como se o rosto tivesse cantos como no futebol e dali saísse o mais importante, o golo decisivo. E era esse modo de sorrir que se tornava encantador em Mário Zambujal. Uma malícia, como ofício, que vinha do rosto dele; um gozo bem letrado, formado no jornalismo das boas conversas, boas e leves. Depois ele passava esse gozo, essa maneira gentil de ver todos os acontecimentos, para as suas personagens. Hoje, a expressão ‘bom malandro’ ficou na sociedade e nos cafés. Já não sabemos se vinha de antes do livro – e talvez viesse – mas depois do livro de Zambujal, como que ganhou forma mais concreta, ganhou rosto. Um bom malandro é aquele que faz micro-aldrabices; aldrabices que só um potente microscópio deteta. É necessário fazer um zoom in, um aproximar da lente dos detalhes, para ver o que o bom malandro está a fazer atrás das costas, com o seu dedo mindinho.

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