O velho Doutor Homem, meu pai, não tinha grandes conhecimentos de botânica, de agricultura ou da vida fora da sua cidade, o Porto. Mesmo o seu interesse pela meteorologia era tipicamente urbano e egoísta: aguardava pelo Boletim Meteorológico todas as noites porque, praticando aquela vaidade portuense que nunca o abandonou, queria preparar o seu guarda-roupa para o dia seguinte. Quando queria lamentar-se acerca de Portugal, o causídico determinava que era um país bom para hortas, mas creio que ignorava o que fossem hortas. À sua medida, tinha com “a natureza” uma relação trapalhona e fingia tomar conhecimento da existência de árvores no Jardim da Cordoaria, de palmeiras e outras espécies desconhecidas no Passeio Alegre, de objectos verdejantes na Praça de Liège, de sombras funestas em Agramonte ou no Prado do Repouso, de florestas a caminho de Ponte de Lima e de trepadeiras de Santa Teresinha nos muros de granito daquele velho casarão na vila do Alto Minho, onde se arquivaram as memórias e as raízes desta família. No fim de contas, “a natureza”, esse bem inestimável, não lhe fazia falta. O velho Doutor Homem, meu pai, achava graça às hoje centenárias nespereiras e aos chorões que pontificavam no pátio das traseiras, ao pé do relvado que evitava pisar – mas nunca se interessou pela sua sobrevivência. Além do mais, não gostava de nêsperas e, apenas entre nós, tinha um certo desprezo por legumes no prato, tratando-os como um apenso decorativo.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
A olhar o nevoeiro entre as agulhas dos pinhais.
A mesma Pátria chorosa volta a não ler o escritor tão amado que durante dois dias foi o mais folheado dos seres humanos
Aguardam que o Professor Marcelo regresse ao “comentário político” enquanto o Dr. Seguro arruma o Palácio de Belém.
No século da inteligência artificial sou um sobrevivente do tempo em que ainda duvidávamos da inteligência humana
O Tio Alberto gostava de café “con unas gotitas” e tomava-o nessas peregrinações plebeias pela Galiza.
Achava que os rios eram interessantes consoante a temporada da lampreia ou da truta
O Correio da Manhã para quem quer MAIS
Sem
Limites
Sem
POP-UPS
Ofertas e
Descontos