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Vanessa Fidalgo

Jornalista

Palácio dos Aciprestes

20 de novembro de 2016 às 00:30

Paula ouvia, espantada com tanta crendice em pleno século XXI. Atribuiu-a à antiguidade do velho Palácio dos Aciprestes, ao mistério que os seus jardins fundavam na mente de quem nunca tinha transposto o arco em pedra da entrada, certamente capaz de alimentar o imaginário popular.

Tinha imenso orgulho em trabalhar ali. Deliciava-se com o romantismo do salão principal, com a sua lareira e a imensa escadaria que dava acesso ao seu gabinete. Não evitava lá ficar sozinha até altas horas, porque também não tinha razões para isso. Até ao dia!…

O estagiário chegou, tímido e desajeitado, para a entrevista da praxe. Paula Saraiva mirou e revirou-lhe o currículo, ouviu-lhe a história do costume. Estavam os dois sozinhos ou, pelo menos, assim era suposto. "Tum… tum… tum". Três passos cavos num chão de madeira. "Como é possível, se o chão é de pedra?", questionou-se aos seus botões. Esperou que o visitante chegasse. Mas ele tardava…

Depois outra vez: "tum… tum… tum".

- Você ouviu isto? – perguntou ao estagiário.

O jovem assentiu, voltando-se hesitantemente para trás. Paula levantou-se e abriu a porta de rompante, como se quisesse surpreender alguém. Mas não havia ninguém no corredor. Ninguém na escadaria de pedra. Em abono da verdade, não havia mais ninguém no edifício. E Paula sabia disso.

"Talvez seja o vento", justificou para se tranquilizar. Mas nunca mais tomou como levianas as palavras dos antigos.

Quando teve tempo, investigou o passado do edifício: efetivamente, outrora o chão foi de madeira. Mas o mais extraordinário é que o Palácio dos Aciprestes, que carrega esta fama de assombrado, nunca teve residentes fixos por muito tempo. Chegou a ser oferecido como residência a várias famílias burguesas mas nenhuma conseguiu ficar por muito tempo, pois coisas esquisitas estavam sempre a acontecer…

Uma vez desperta para tais ‘visitas’, já não conseguiu mais ignorá-las. Por vezes, rodeavam--na no corredor quando falava ao telefone, como se quisessem tomar parte na conversa. Outras vezes batiam portas e janelas, sem que lá fora bulisse aragem. Então, não tinha outro remédio senão concordar: "Quem te avisa, teu amigo é!" 

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