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Luciano Amaral

Luciano Amaral

Professor universitário

A pós-verdade

26 de dezembro de 2016 às 00:57

Diz que a palavra do ano 2016 é ‘pós-verdade’. Confesso que ainda não percebi bem o que significa e ela já foi interpretada das mais diversas maneiras: como um sinónimo de mentira, como uma indiferença pela verdade nos debates políticos, como a formação da opinião pública independentemente de factos… Talvez o melhor seja usar a definição do Dicionário de Oxford, que, precisamente, a escolheu como palavra do ano e iniciou a moda de a usar recorrentemente. Segundo a vetusta instituição, ‘pós- -verdade’ ocorre quando há ‘circunstâncias nas quais os factos objectivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos a emoções e convicções pessoais’. Ora, dito assim, o que tem isto de novo?

O apelo a emoções e não a factos para formar opinião pública é a matéria mesma da política. O que foi a revolução comunista na Rússia, de que para o ano se comemora o centésimo aniversário, senão um enorme apelo a emoções? O que foi a propaganda generalizada para lançar os países europeus na I Guerra Mundial, de que para o ano se continua a comemorar o centenário? O que foi a campanha europeia para criar o euro nos anos 90? O que são, na verdade, a maior parte das campanhas eleitorais dos regimes democráticos?

Quase ninguém forma a sua opinião a partir de factos, mas de emoções. Muitas vezes os factos só servem para corroborar emoções, esquecendo-se os que não servem. Na verdade, a ‘pós-verdade’ parece ser sobretudo algo que transmite a impotência dos comentadores para colocarem os actuais debates dentro das categorias a que se habituaram. Como interpretar o ‘Brexit’ ou Trump, com o seu apelo simultâneo ao conservadorismo e à ‘classe operária’? Ou Le Pen e os seus votantes saídos do Partido Comunista? A ‘pós-verdade’ não passa de um palavrão para descrever um mundo que não se compreende e cujos caminhos são um mistério assustador.

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