Chega sempre o dia em que o optimismo se transforma em cinismo. Só é possível continuar a achar que tudo vai bem varrendo aquilo de que não se gosta para debaixo do tapete. Haveria certamente optimistas na URSS em 1936, desde que esquecessem as purgas, os recém-inaugurados gulags e os milhões de mortos da colectivização da agricultura. E o que é verdade para grandes desgraças também o é para desgraças mais pequenas, e para a política em especial. A política não é a exibição do optimismo apalermado em que os nossos primeiro-ministro e Presidente da República se especializaram. É uma actividade trágica, em que se tem de esperar o inesperado, em que tanto entra a sorte como o azar, em que muitas vezes se tem de vestir o camuflado e atravessar mundos inóspitos.
O dia em que optimismo se torna cinismo chegou para o Governo. O país continua consumido em labaredas e todos os dias vemos imagens que parecem saídas de uma guerra: floresta, campos, casas e carros carbonizados, pessoas abandonadas em paisagens tornadas arrepiantes. Mas o Governo logo se apressa a considerar "tudo esclarecido", mostrando-se sobretudo preocupado em manipular a informação, e incapaz de produzir um gesto eficiente ou sequer sincero de apoio às vítimas desoladas desta desgraça. Pedro Filipe Soares, apoiante do Governo e dirigente do BE, explicou bem o que se passa: depois de Pedrógão, Costa ficou à espera do "regresso à normalidade, que não aconteceu". Não aconteceu, e agora ele anda um bocado perdido. Lá está: a política não é a gestão da "normalidade". É outra coisa. O Presidente da República, por exemplo, já converteu o seu optimismo tolo inicial numa atitude mais adequada à hora.
Mas Costa tem sorte: amanhã entra bastante gente de férias e o PSD há muito que está de férias, consumido nas chamas internas da imolação de Passos e da busca de um novo chefe.
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