Está provado que os eleitores portugueses não são de confiança. Astutos e manhosos, os eleitores sobreviventes andam a enganar os cientistas das sondagens, assumindo-se como "indecisos" ou "abstencionistas". O meu amigo Zé dos Pneus costumava dizer que o problema está na pergunta: "Em que partido é que vai votar?" Uma questão facciosa e inútil, colocada por voz telefónica a quem tem o telefone sempre em casa, ou seja, o dito telefone fixo, mais conhecido por ‘telefone-bibelot’.
O Zé defendia que só uma pergunta deve ser feita: "Quem é que acha que vai ganhar as eleições?" Desta vez, bastava a pergunta: "Em quem é que a sua sogra vai votar? No Costa ou no Passos?" Pode ser a sogra, a vizinha, o patrão ou o gato. Neste caso, com pergunta às três tabelas, qualquer português responde com sinceridade e convicção. Tal como as perguntas andam a ser feitas, ganha simplesmente o eleitor de fezada, tipo "cá pra mim, a malta vai lixar o X". E há ainda mais duas grossas fatias de eleitores – os que acreditam em bruxas e os que acreditam no Pai Natal.
Há quem suspeite até que, perante as sondagens desta campanha, os partidos políticos já contrataram, à sorrelfa, meia dúzia de bruxos, médiuns e videntes, já que Nossa Senhora de Fátima há muito se deixou de fazer milagres em matéria de política eleitoral. No país de Zandinga, do Professor Karma, da Santa da Ladeira e do Sô Zé, os cérebros do marketing político reagiram com inteligência psicanalítica – preferiram a nobreza da fé à confusão da ciência.
O meu amigo Zé costumava recordar uma grande figura do futebol brasileiro, João Saldanha, jornalista audacioso e crítico que foi selecionador do Brasil. Saldanha, comunista convicto, sabia que nestas coisas de ganhar jogos ou eleições há muita gentinha que acredita em macumba e rezas fortes.
Treinador na Bahia, capital da macumba, Saldanha saiu-se com uma das maiores tiradas da sua carreira: "Se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminava empatado." Por cá, nesta manhã de domingo, eleitores e especialistas em sondagens refugiam-se no "factor João Pinto": prognósticos só depois de contados e recontados os votos. Quanto a bruxas e videntes, estão hoje proibidos de prestar declarações aos eleitores.
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