Partiu o último dos grandes mestres da guitarra portuguesa.
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Viveu durante mais de 60 anos abraçado a uma guitarra e só por uma única vez a colocou de lado, aos 15 anos. Foi quando a mãe morreu. "Naqueles tempos e naquele meio [S.Francisco da Serra, em Santiago do Cacém], parecia mal tocar durante o luto. Tinha tantas saudades que quando voltei a tocar foi com tal frenesim que fiquei com os dedos em sangue", recordava na última entrevista ao CM. António Chainho, o guitarrista que se assumia tão fadista a tocar como aqueles que cantavam o fado, que cumpriu todo o serviço militar com a guitarra atrás ("era a minha arma", dizia), que dizia que o instrumento era o grande amor da sua vida, morreu esta terça-feira, em sua casa, em Alfragide, no mesmo dia em que faria 88 anos de idade. Portugal perde o último dos grandes mestres da guitarra Portuguesa depois de Armandinho, Carlos Paredes, Fontes Rocha e Fernando Alvim.
Em nota de pesar, a família fala num "homem completo, indissociável da história do fado e da música em Portugal. Fica a imensa saudade, o silêncio da sua inigualável sensibilidade e a eterna companhia do seu talento, da sua música". No sítio oficial da Presidência da República na Internet, Marcelo Rebelo de Sousa evoca uma "personalidade cimeira na guitarra portuguesa e no fado" e "Um símbolo inspirador para gerações de instrumentistas". O município de Santiago do Cacém decretou três dias de luto nacional.
Filho e neto de moleiros, António Chaínho nasceu a 27 de Janeiro de 1938, em S.Francisco da Serra. O interesse pela guitarra nasceu em criança a ver o pai tocar, tendo a sua estreia em palco acontecido aos onze anos na festa de uma coletividade depois de um jogo de futebol entre o S.Francisco e o Abela. "Naquela altura a nós ninguém nos ganhava", garantia. Ao longo da carreira tocou com alguns dos maiores nomes da música, de Carlos do Carmo a Gal Costa, mas a primeira pessoa que acompanhou, ainda aos 13 anos, foi a mãe que gostava de cantar os fados da Amália. "Tenho um enorme desgosto por a minha mãe ter morrido sem ver onde me levou o amor pela guitarra", dizia ao CM. Autodidata e com um talento inato, recordava o dia em que Paco de Lucia tentou, pela primeira vez tocar uma guitarra portuguesa. "Um dia pediu-me para experimentar e não conseguiu fazer nada daquilo, por causa da afinação e maneira de tocar muito própria. Ele só me dizia “António, tu és louco ...este instrumento é de loucos”. Chaínho despediu-se dos palcos em setembro de 2024, admitindo algumas dificuldades fisicas em tocar. Nesse ano lançou o último disco, 'O Abraço da Guitarra'. Em 2022 tinha sido condecorado com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.
O corpo sai esta quarta-feira, pelas 10h00, do Seminário Nossa senhora de Alfragide (onde decorreu o velório na terça-feira) em direção ao Complexo Fúnebre em Setúbal onde será cremado pelas 12h00.
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