O Verão foi sempre apreciado por Dona Ester, minha mãe. Ela achava que as canículas da tarde e as brisas do crepúsculo correspondiam a uma espécie de sanatório de que podíamos aproveitar as benesses sem onerar a disciplinada bolsa da família. Iodo, sal, água fria, merendas – tal era a posologia desse tratamento a que submetia os filhos, enquanto o velho Doutor Homem, meu pai, se refugiava na penumbra do casarão de Ponte de Lima, a ler genealogias e a ouvir ópera. Já o meu avô, administrador de quintas do Douro, sofria amargamente com o Verão. Tendo de viajar por aqueles alcantilados de vinhas e rochas sombrias, era uma vítima do calor inclemente que varria o mapa da região. Dois ou três dias depois de embarcar de comboio na estação de São Bento, carregado de pastas de contabilidade, chegava a Barca d'Alva, que era o epicentro de um inferno sem amenidades, onde mantinha o ritual das conversações crepusculares com Guerra Junqueiro, o poeta da Quinta da Batoca – e uma semana depois regressava a São Bento, agora carregado de cabazes de fruta e de colheitas de vinho do ano passado.
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No século da inteligência artificial sou um sobrevivente do tempo em que ainda duvidávamos da inteligência humana
O Tio Alberto gostava de café “con unas gotitas” e tomava-o nessas peregrinações plebeias pela Galiza.
Achava que os rios eram interessantes consoante a temporada da lampreia ou da truta
Por sermos leais ao passado, não há escolha quando se trata de boa educação.
Era bom para peregrinos de Castro Laboreiro ou frades eremitas de Rendufe.
Não gostava de nêsperas e tinha um certo desprezo por legumes no prato, tratando-os como um apenso decorativo.
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