Em momentos de extrema vaidade, que ocorrem de vez em quando, penso que talvez tivesse gostado de me dedicar à arte da biografia. Faltam-me o espírito de curiosidade do velho Doutor Homem, meu pai, o gosto pelas história de genealogia, e o talento que na família me foi distribuído com certa avareza. Se me perguntassem de quem gostaria de ter sido biógrafo eu teria escolhido (dado que o meu pai não tem biografia) dois personagens que marcaram a minha vida como cometas que arrastaram consigo uma poeira de génio e de singularidade, e ambos da minha família: o Tio Alberto, bibliófilo de S. Pedro dos Arcos, aventureiro, jurista irregular e gastrónomo; e a Tia Benedita, que não deixou obra, não deixou seguidores, não deixou nada de seu senão a memória de uma existência limiana, consagrada a prolongar o brio do ramo verdadeiramente ultramontano da família. Derradeira matriarca dos Homem, cumpriu um destino silencioso, mantendo – com um humor finíssimo e sem amargura – as excentricidades de há dois séculos, que ela sabia estarem definitivamente fora de moda mas que alguém tinha de fingir estarem vivas.
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No século da inteligência artificial sou um sobrevivente do tempo em que ainda duvidávamos da inteligência humana
O Tio Alberto gostava de café “con unas gotitas” e tomava-o nessas peregrinações plebeias pela Galiza.
Achava que os rios eram interessantes consoante a temporada da lampreia ou da truta
Por sermos leais ao passado, não há escolha quando se trata de boa educação.
Era bom para peregrinos de Castro Laboreiro ou frades eremitas de Rendufe.
Não gostava de nêsperas e tinha um certo desprezo por legumes no prato, tratando-os como um apenso decorativo.
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