Se me tivessem perguntado a idade de David Bowie eu não saberia responder. Teria de fazer contas. Começaria, vá lá, nos 40. Chegaria aos 70 com muito esforço e ficaria surpreendido – ser eterno, no fundo, é não ter idade. Bob Dylan, Mick Jagger, Van Morrison: não recordo a idade de nenhum deles, nunca me interessou. Mas Bowie, sim, Bowie nunca passou dos 40, apesar de ter reinventado permanentemente o seu caminho, gerando um número infame de imitadores que nunca compreenderam que, após ‘Space Oddity’, ele estava sempre muito além. ‘Ziggy Stardust’ foi aos 25, e recomeçou tudo o que já vinha escrito e sugerido em ‘The Man Who Sold the World’ (aos 23): um mundo sem um único sentido, mas de vários sentidos; a omnipresença da literatura, do medo do vulgar, da profundidade, da visão do infinito (‘Space Oddity’, aos 22 anos). Aos 27, ‘Rebel, Rebel’. Aos 30, ‘Heroes’. Os tempos de Brian Eno. Aos 33, ‘Ashes to Ashes’. ‘Never Let Me Down’ aos 40. Aos 36 tinha sido ‘Let’s Dance’, clássico da pop.
Há quem peça tempo emprestado a Deus – e gente que se dedica a tomar o seu tempo, a dar as coisas por concluídas quando chega a altura, mantendo o seu estilo, a sua beleza. O título do seu derradeiro álbum, ‘Blackstar’, não é um acaso, lembrando a sua forma de escapar à banalidade, sempre incandescente, como um meteoro rodeado de poeira desconhecida. Lembrando outro firmamento.
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