‘O Triunfo do Ocidente’ é um livro notável sobre os pilares do nosso mundo, escrito por Rodney Stark, um sociólogo norte-americano
Como somos nós, ocidentais, vistos pelos chineses, pelos esquimós, pelos japoneses ou pelos indianos e africanos? Do seu ponto de vista somos nós os heróis magníficos da Távola Redonda, das Cruzadas ou do Iluminismo? A resposta à primeira pergunta é "sabemos pouco, mas sabemos alguma coisa"; a segunda é "não". Nenhuma das respostas é surpreendente.
Peguemos em Camões e em ‘Os Lusíadas’ – têm os povos de Calecute, da África ou dos territórios onde passaram os heróis do poema épico uma imagem tão feliz da nossa gesta? Não. Teremos de, para reparar as patifarias dos antepassados, queimar ‘Os Lusíadas’ em piras de arrependimento multicultural? Há quem defenda isso mesmo, que ‘Os Lusíadas’ são um dos monumentos mais temíveis e obstinados do colonialismo e do imperialismo europeu (ainda por cima, cristão e ligeiramente antimuçulmano) – e que Camões deve ser expulso do panteão das nossas referências. Gosto do tema e costumo citar o grande Harold Bloom: "O épico de Camões, poeta que é o Homero, ou Virgílio português, talvez seja o poema menos politicamente correto de todos os tempos, e o autor é, flagrantemente, culpado de todos os ‘pecados’, a princípio, pelas universidades e agora deplorados pelos média: orientalismo, racismo, sexismo, mercantilismo, imperialismo e todas as suas variações. [...] Na presente Era do Terror, há de parecer um tanto provocador, pois a sua noção de um mundo conquistado para o catolicismo português, necessariamente, aponta os muçulmanos como maiores rivais." Tudo isto se passa numa "cavalgada heroica de depredação portuguesa mundo fora", como o "triunfo do sadismo masculino".
Os pilares
Neste livro, há largas páginas dedicadas aos descobrimentos portugueses — como à revolução industrial, as descobertas da ciência, a noção de prosperidade económica e de justiça social, o papel do conhecimento e da liberdade. Estes são pilares fundamentais da "civilização ocidental", esse mundo que hoje é considerado obtuso e adversário dos tempos que correm, juntamente com o díptico "civilização judaico-cristã" e com o horror banal que durante anos se votou à Idade Média, a tal "noite dos mil anos" que preparou a modernidade e armazenou as joias da nossa cultura. Hoje, o "fardo do homem branco" é pesado. O poema que levava esse título, escrito por Rudyard Kipling um ano antes do século XX, alertava para os custos da expansão do ocidente para o Pacífico (tratava-se da tomada das Filipinas e, consequentemente, do alargamento da influência americana na região), é premonitório de todas as perseguições que cem anos depois dominariam o discurso oficial das universidades e do "conhecimento cultural". Cem anos depois, de fato, os livros de Mark Twain são banidos por serem racistas e os de Melville censurados por "defenderem o extermínio das baleias" – tal como as grandes obras de arte do passado, dos frescos de Miguel Ângelo e Rafael até Homero e Flaubert são vistas como produtos de uma agressão. Stark propõe-se contar não a história maravilhosa do Ocidente, mas a estabelecer a defesa de uma civilização que conquistou o mundo – é verdade – à custa da invenção e do conhecimento, e não das armas e da guerra. E é uma história que todos devemos conhecer.
Autor:Rodney Stark
Editora: Guerra e Paz
Filme
‘Os Maias’
O cinema entrou pela porta da literatura, de novo, com a encenação da obra-prima de Eça. Mas, longe de ‘adaptar’ o livro, João Botelho tenta devolver-nos o seu esplendor como uma máquina de sonhos, cheia de cenários de papel – as melhores cenas, porém, são as de tom mais ‘realista’, até para compensar algumas das interpretações mais hirsutas.
em exibição nos cinemas
Concerto
Jazz
Magnífico quarteto de saxofones, João Figueiredo (soprano), Fernando Ramos (alto), Henrique Portovedo (tenor) e Romeu Costa (barítono), os Quad Quartet iluminarão o Porto. A promessa é a de oscilar entre a veneração a Miles Davis (‘Facing Death’, de Louis Andriessen) e o abandono de ‘Take a Wild Guess’ (JacobTV). Tentador.
Local Casa da Música,
Porto (terça; 09h30)
Livro
‘O que nos separa dos outros por causa de um copo de whisky’
Patrícia Reis é uma das autoras mais subvalorizadas. O seu novo romance começa em Macau com a descrição de um encontro inexistente entre um professor e uma empregada de bar. É o pretexto um prodigioso exercício de imaginação acerca da perda e do destino por cumprir.
autor Patrícia Reis
editora Dom Quixote
Fugir de:
Economia
Nos últimos cinco anos, 70% do noticiário televisivo foi dominado por informação económica. A crise transformou jornalistas em comentadores de astrologia (é o que eu chamo à ‘economia de jornal’).
E somos bombardeados com números, como se estes fossem a verdade. Não é. Há mais: o poder absoluto conferido aos ‘gestores’, ao seu manejo dos números e à linha direta que mantêm como "o mercado". Uma coisa são contas em dia; outra, esta parvoíce.
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