Estava para ignorar o ‘Chic-Nic’ – só o nome embaraça - mas, entretanto, lembrei-me da feijoada patrocinada por um detergente que inaugurou a Ponte Vasco da Gama e entrou para o Guinness. Estes dois eventos marcam a forma como Lisboa se tem desenvolvido nas últimas décadas. Com o feijão inaugurámos a ponte, depois da recuperação de parte da zona oriental da cidade, que não teria acontecido tão depressa se não fosse uma exposição mundial em 1998; agora, em 2026, para um evento nos antípodas do anterior foi ‘fechado’ o Parque Eduardo VII. Diz que foi um piquenique com bilhetes de 150 a 300 euros. A coisa comum transformada em coisa exclusiva – e subsidiada pela autarquia. Aliás exclusivo, depois de gourmet (hoje em dia, diz-se, só os pacóvios ainda usam), é a nova palavra da moda – o que também mostra muito do que somos nos dias piores. Lisboa tem problemas de gestão urbana e qualidade de vida, falta de casas para a classe média (a verdadeira) e assimetrias socioeconómicas brutais – vão, por exemplo, da Avenida da Liberdade para a Almirante Reis e Marvila (que não é só a margem do rio Tejo e inclui Chelas) para perceberem como a cidade, afinal pequena, coleciona problemas como se fosse Paris.
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